domingo, 6 de outubro de 2013

Ser sadio na doença...



No dia 10 de maio de 1873, chegou a Molokai, no arquipélago de Havaí, o missionário belga, Damião de Veuster. A “ilha maldita” era habitada por 3.113 leprosos. Ao longo dos 16 anos em que lá permaneceu, o padre «fez-se tudo para todos» (1Cor 9,22), a serviço de pessoas que, desesperadas e revoltadas, acabavam criando, umas para as outras, um verdadeiro inferno. Certo dia, em 1884, cinco anos antes de falecer, quando começava a colher os frutos de sua doação, percebeu que, ele também, havia sido atingido pela enfermidade. No domingo seguinte, ao invés de se dirigir aos fiéis como sempre fazia – um sadio falando para doentes –, iniciou sua homilia dizendo: «Nossa pátria é o Céu, para onde nós, os leprosos, estamos certos de ir muito em breve. Lá não haverá feiura nem doença: seremos todos transfigurados».

Lembrei-me das palavras de Damião – elevado à honra dos altares por Bento XVI, em 2009 – ao ser informado, no dia 6 de setembro, que estava com câncer. Como o “Apóstolo dos leprosos”, eu também “cruzara a ponte” e me colocara na margem oposta, aonde nunca teria gostado de chegar. “Por ironia do destino” – para citar uma expressão que detesto – realizava-se em mim o que escrevi em 2012, num artigo que intitulei: “Prepare-se: você vai morrer de câncer!”. Nele, eu citava uma agência internacional de pesquisa, para dizer que o número de casos de câncer crescerá em 75% até o ano de 2030: em 2008, eles eram 12,7 milhões e, em 2030, serão 22,2 milhões.

Não estou revelando nenhum segredo ao dizer que a minha santidade não é a de Damião de Molokai. Nem de Santa Teresinha que, ao se perceber tuberculosa, exclamou: «É o Esposo que está chegando!». Nem de uma jovem do Movimento dos Focolares que, indagada como estava, respondeu, aludindo ao câncer que a consumia: «É o Reino de Deus que avança!». Não, eu me sinto bem mais fraco. Quando alguém me pergunta: “Como vai?”, a tentação seria responder: “Mais mal do que bem!”.

Mas, se assim fizesse, estaria esquecendo o que tentei construir e me sustentou ao longo da vida. A resposta cristã deveria ser: «Pela graça de Deus, vou bem!». Ou, como costuma dizer Frei Hans Stapel, fundador da Fazenda da Esperança: «Melhor do que mereço!». Quantas vezes eu falei, em minhas homilias ao povo, que, mesmo estando doentes fisicamente, podemos ser sadios espiritualmente! Era esta, aliás, a convicção de São Paulo: «Se vivemos, é para o Senhor que vivemos; se morremos, é para o Senhor que morremos. Quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor» (Rm 14,8).

Mas, como todos sabem, é mais fácil falar ou escrever do que aceitar os entraves impostos pela enfermidade. Perder planos e projetos; perceber que o futuro fica incerto e restrito; depender da boa vontade de outrem; passar da atividade à inércia; sentir-se um peso para quem está ao lado; manter a paciência e a esperança... Não, não é fácil ser sadio na doença!

De outro lado, preciso reconhecer que a vida me foi sempre generosa. Não nego: desde a infância, passei por momentos amargos e dolorosos, que geraram carências e traumas. Mas foram mitigados pelo amor com que Deus me acompanhou, concretizado na amizade e no apoio que uma multidão de irmãos e irmãs me proporcionou. Penso que posso repetir o que o Papa Francisco disse de si mesmo, após o término da Jornada Mundial da Juventude: «Como padre, fui feliz; como bispo, fui feliz; e agora, como papa, continuo feliz!».

Quanto à morte, retomo as palavras do Papa numa entrevista que deu no Rio de Janeiro: «Não tenho medo. Sei que ninguém morre na véspera. Quando chegar a minha vez, o que Deus permitir, assim será!». Com isso, não nego o meu medo diante da dor e da morte. Esta continua sendo o maior desafio da vida, semelhante ao de uma criança que deixa o aconchego do seio materno para entrar num mundo desconhecido. Mas, não se pode esquecer, o nascimento é a melhor coisa que pode acontecer para a criança, a mãe e o mundo. Por tudo isso, apesar da fragilidade que me é inata, faço minhas as palavras que São Paulo dirigia a seus amigos: «Se continuar em vida, penso que poderei fazer ainda algum trabalho útil. Não sei o que escolher. As duas coisas me atraem: morrer para estar com Cristo e continuar trabalhando por vocês!» (Fl 1, 22.24).

Dom Redovino Rizzardo, Bispo de Dourados (MS)


Leitura Bíblica: Lucas 17, 5-10





Quando tiverdes feito tudo o que vos mandaram, dizei: ‘Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer’” (Lc 17,10)

Não existe prodígio maior para um seguidor de Cristo do que servir. Quem ama Nosso Senhor Jesus Cristo, tem fome de servir.

Isso significa fazer o bem sem esperar recompensa. E aquele que tiver olhos de águia para as coisas de Deus, verá que, no bem que faz, ali já mora sua recompensa. O cristão deve se alegrar por servir, pois de fato não há alegria maior.

Nem sempre é fácil, mas Jesus pede: “Tendes fé!”. Com ela, poderás mover montanhas e, se o próprio Senhor lhe deu a tarefa, é óbvio que nos dará as condições para cumpri-las. Como nos diz o salmista: “Confia no Senhor e faze o bem!”

www.franciscanos.org.br, reflexão feita pelos Noviços

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Não desanimeis

Amados jovens,sabeis bem como me preocupa a paz no mundo. A espiral da violência, o terrorismo e a guerra provoca, também nos nossos dias, ódio e morte. A paz sabemo-lo é antes de tudo um dom do Alto que devemos pedir com insistência e que, além disso, devemos construir entre todos mediante uma profunda conversão interior. Por isso, hoje desejo pedir-vos que sejais realizadores e artífices de paz. Respondei à violência cega e ao ódio desumano com o poder fascinante do amor.

Vencei a inimizade com a força do perdão. Mantende-vos longe de qualquer forma de nacionalismo exacerbado, de racismo e de intolerância. Testemunhai com a vossa vida que as ideias não se impõem, mas se propõem. Nunca vos deixeis desanimar pelo mal! Para isso tendes necessidade da ajuda da oração e do conforto que brota de uma amizade íntima com Cristo. Só assim, vivendo a experiência do amor de Deus e irradiando a fraternidade evangélica, podereis ser os construtores de um mundo melhor, autênticos homens e mulheres pacíficos e pacificadores.

Queridos jovens, ide com confiança ao encontro de Jesus, e, como os novos santos, não tenhais medo de falar d'Ele! Porque Cristo é a resposta verdadeira para todas as perguntas sobre o homem e sobre o seu destino. É preciso que vós, jovens, vos convertais em apóstolos dos vossos coetâneos. Sei muito bem que isto não é fácil. Muitas vezes tereis a tentação de dizer como o profeta Jeremias: "Oh! Senhor, eu não sei exprimir-me, sou um jovem" (Jer 1, 6). Não desanimeis, porque não estais sozinhos: o Senhor nunca deixará de vos acompanhar, com a sua graça e com o dom do seu Espírito.

Esta presença fiel do Senhor torna-vos capazes de assumir o compromisso da nova evangelização, para a qual estão chamados todos os filhos da Igreja. É uma tarefa de todos. Nela os leigos têm um papel de protagonistas, especialmente os esposos e as famílias cristãs; sem dúvida, a evangelização exige hoje com urgência sacerdotes e pessoas consagradas. Eis a razão pela qual desejo dizer a cada um de vós, jovens: se sentis a chamada de Deus que vos diz: "Segue-me!" (Mc 2, 14; Lc 5, 27), não a sufoqueis. Sede generosos, respondei como Maria oferecendo a Deus o sim alegre das vossas pessoas e da vossa vida.

Dou-vos o meu testemunho: eu fui ordenado quando tinha 26 anos. Desde então se passaram 56.

Então, quantos anos tem o Papa? Quase 83! Um jovem de 83 anos. Quando olho para trás e recordo estes anos da minha vida, posso garantir-vos que vale a pena dedicar-se à causa de Cristo e, por amor d'Ele, consagrar-se ao serviço do homem. Vale a pena dar a vida pelo Evangelho e pelos irmãos! Quantas horas faltam para a meia-noite? Três horas. Só três horas para a meia-noite e depois chega a manhã.

Santa Maria, Mãe dos jovens, intercede para que sejam testemunhas de Cristo Ressuscitado, apóstolos humildes e valorosos do terceiro milênio, arautos generosos do Evangelho.

Santa Maria, Virgem Imaculada, reza conosco, reza por nós. Amém.

(Discurso do Papa João Paulo II, na Vigília de oração com os jovens espanhóis. Madrid, 3 de maio de 2003)

terça-feira, 1 de outubro de 2013

No coração da Igreja serei o amor

“Não quero ser santa pela metade, escolho tudo”. Hoje a Igreja celebra Santa Teresa do Menino Jesus. A santa de hoje nasceu em Alençon (França) em 1873 e morreu no ano de 1897. Santa Teresinha não só descobriu que no coração da Igreja sua vocação era o amor, como também sabia que o seu coração – e o de todos nós – foi feito para amar. A seguir, compartilho com vocês um lindo texto, de autoria de Santa Teresa do Menino Jesus, ou simplesmente, Santa Teresinha.

Meus imensos desejos me eram um autêntico martírio. Fui, então, às cartas de São Paulo a ver se encontrava uma resposta. Meus olhos caíram por acaso nos capítulos doze e treze da Primeira Carta aos Coríntios. No primeiro destes, li que todos não podem ser ao mesmo tempo apóstolos, profetas, doutores, e que a Igreja consta de vários membros; os olhos não podem ser mãos ao mesmo tempo. Resposta clara, sem dúvida, mas não capaz de satisfazer meu desejo e dar-me a paz. 

Perseverei na leitura sem desanimar e encontrei esta frase sublime: Aspirai aos melhores carismas. E vos indico um caminho ainda mais excelente (1Cor 12,31). O Apóstolo esclarece que os melhores carismas nada são sem a caridade, e esta caridade é o caminho mais excelente que leva com segurança a Deus. Achara enfim o repouso. 

Ao considerar o Corpo místico da Igreja, não me encontrara em nenhum dos membros enumerados por São Paulo, mas, ao contrário, desejava ver-me em todos eles. A caridade deu-me o eixo de minha vocação. Compreendi que a Igreja tem um corpo formado de vários membros e neste corpo não pode faltar o membro necessário e o mais nobre: entendi que a Igreja tem um coração e este coração está inflamado de amor. Compreendi que os membros da Igreja são impelidos a agir por um único amor, de forma que, extinto este, os apóstolos não mais anunciariam o Evangelho, os mártires não mais derramariam o sangue. Percebi e reconheci que o amor encerra em si todas as vocações, que o amor é tudo, abraça todos os tempos e lugares, numa palavra, o amor é eterno. 

Então, delirante de alegria, exclamei: Ó Jesus, meu amor, encontrei afinal minha vocação: minha vocação é o amor. Sim, encontrei o meu lugar na Igreja, tu me deste este lugar, meu Deus. No coração da Igreja, minha mãe, eu serei o amor e desse modo serei tudo, e meu desejo se realizará.

Da Autobiografia de Santa Teresa do Menino Jesus, séc. XIX

Quem quiser ser o maior, seja o menor

Todos nós, de alguma forma, temos o desejo de aparecer e de sermos reconhecidos, valorizados. Muitas vezes nos sentimos melhores que os nossos irmãos, consciente ou inconscientemente.

A palavra do Senhor nos diz: “Aquele que entre todos vós for o menor, esse é o maior” (Lc 9,48c), portanto, rezemos muitas vezes, ao longo deste dia, para que o nosso coração seja como o de Jesus: Jesus, manso e humilde de coração, fazei o nosso coração semelhante ao vosso.

Jesus, eu confio em Vós!

Luzia Santiago, Comunidade Canção Nova

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Anjos de uma só asa

Lá estava eu com minha família, em férias, num acampamento isolado e com carro enguiçado. Isso aconteceu há 5 anos, mas lembro-me como se fosse ontem. Tentei dar a partida no carro. Nada.

Caminhei para fora do acampamento e felizmente meus palavrões foram abafados pelo barulho do riacho. Minha mulher e eu,concluímos que éramos vítimas de uma bateria arriada. Sem alternativa, decidi voltar á pé até a vila mais próxima e procurar ajuda. Depois de uma hora e um tornozelo torcido, cheguei finalmente a um posto de gasolina. Ao me aproximar do posto, lembrei que era domingo e é claro, o lugar estava fechado. Por sorte havia um telefone público e uma lista telefônica já com as folhas em frangalhos. Consegui ligar para a única companhia de auto socorro que encontrei na lista, localizada a cerca de 30km dali.

- Não tem problema, disse a pessoa do outro lado da linha, normalmente estou fechado aos domingos, mas posso chegar aí em mais ou menos meia hora.

Fiquei aliviado, mas ao mesmo tempo consciente das implicações financeiras que essa oferta de ajuda me causaria.

Logo seguíamos eu e o Zé, no seu reluzente caminhão-guincho em direção ao acampamento. Quando saí do caminhão, observei com espanto o Zé descer com aparelhos na perna e a ajuda de muletas para se locomover. Santo Deus! Ele era paraplégico!

Enquanto se movimentava, comecei novamente minha ginástica mental em calcular o preço da sua ajuda.

- É só uma bateria descarregada, uma pequena carga elétrica e vocês poderão seguir viagem, disse-me ele.

O homem era impressionante, enquanto a bateria carregava, distraiu meu filho com truques de mágica, e chegou a tirar uma moeda da orelha, presenteando-a ao garoto.

Enquanto colocava os cabos de volta no caminhão, perguntei quanto lhe devia.

Oh! nada - respondeu, para minha surpresa.

- Tenho que lhe pagar alguma coisa, insisti.

- Não, reiterou ele. Há muitos anos atrás, alguém me ajudou a sair de uma situação muito pior, quando perdi as minhas pernas, e o sujeito que me socorreu, simplesmente me disse. - Quando tiver uma  oportunidade passe isso adiante!

Somos todos anjos de uma asa só.
Precisamos nos abraçar para alçar voo.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O amor dói

Ninguém vive sem amor, e ninguém ama sem sentir dor. O amor é um mistério, um segredo que se vive sem esperar nada em troca. Na dinâmica da vida desejamos ser amados, compreendidos, respeitados, valorizados, considerados.

Tudo começa com sorrisos e termina em lágrimas, e sem elas a vida perde o sentido. Como amar e sentir a dor da traição, da desconfiança, da mentira, da falsidade, do silêncio, da solidão, do abandono, do reconhecimento?

Não existe amor sem dor. Na medida em que a dor é amada, imediatamente é superada. “Só quem passa pelo fogo da dor, chega ao incêndio do amor”. Saber amar é saber superar gratuitamente cada pequeno ou grande desencontro, sem esperar nada em troca, a não ser a força de recomeçar. Diante dos conflitos da vida cotidiana, a tentação é saber quem tem razão, quem errou. A solução nos interessa, e não o culpado.

O Papa Francisco no domingo passado dizia: “Supomos sermos justos, e julgamos os outros. Julgamos até Deus, porque pensamos que deveria punir os pecadores, condenando-os à morte, em vez de perdoar. Agora sim corremos o risco de permanecer fora da casa do Pai! Como aquele irmão mais velho, em vez de se alegrar porque seu irmão retornou, ele fica com raiva de seu pai que o acolhe e faz festa.

Se em nossos corações não há misericórdia, alegria do perdão, não estamos em comunhão com Deus, mesmo observando todos os preceitos, pois é o amor que salva, não apenas a prática dos preceitos. É o amor por Deus e pelo próximo que realiza todos os mandamentos. E este é o amor de Deus, a sua alegria: perdoar. Nos espera sempre! Talvez algum de vocês tenha algo pesado em seu coração: ‘Mas, eu fiz isso, eu fiz aquilo...’. Ele te espera! Ele é pai: sempre espera por nós!

Se vivemos de acordo com a lei ‘olho por olho, dente por dente’, jamais sairemos da espiral do mal. O Maligno é inteligente, e nos ilude que com a nossa justiça humana podemos nos salvar e salvar o mundo. Na realidade, somente a justiça de Deus pode nos salvar! E a justiça de Deus se revelou na Cruz: a Cruz é o julgamento de Deus sobre todos nós e sobre este mundo.

Mas como Deus nos julga? Dando a vida por nós! Eis o ato supremo de justiça que derrotou, uma vez por todas, o Príncipe deste mundo; e esse ato supremo de justiça é também ato supremo de misericórdia. Jesus chama todos a seguirem este caminho: ‘Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso’ (Lc 6:36)”.

O que aconteceu com aquele que amou a todos, que acolheu os pecadores, fez refeição com eles? O que aconteceu com aquele que curou a os doentes, restabeleceu os paralíticos, fez os surdos ouvirem e os cegos verem?

Como terminou a vida daquele que fez milagres multiplicou cinco pães e dois peixes matando a fome de uma multidão? Qual foi o fim daquele que arrastou multidões e foi aclamado como Rei? O fim foi a solidão, o abandono, a condenação e a morte. Não existe amor verdadeiro sem cruz e sofrimento. O amor dói. É doído amar sem esperar nada, a não ser amar. Foi na entrega por amor do homem de Nazaré, o Filho único do Pai, que hoje somos capazes de amar, mesmo quando o amor dói.

Dom Anuar Battisti, Arcebispo de Maringá (PR)