quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Francisco de Assis, louco de amor



Francisco  teve vida curta.  Um pouco  mais de quarenta anos. Esse Francesco era filho de um novo rico, um certo Pedro de Bernardone. Nasceu num espaço de rara beleza, ou seja, nessa Úmbria italiana de flores, cheias de viço e de florestas verdejantes,  nesse espaço de música, de delicadeza, de cortesia, de beleza, nessa Assis que sempre será recordada como a terra de Francesco, do Poverello. Esse jovem queria tudo: as glórias da guerra, o olhar de ternura das moças  para com as quais se mostrava cheio de cortesia,  a afeição dos amigos com os quais cantava pelas ruelas de Assis.

No auge de sua juventude experimenta, no fundo do coração,  uma nostalgia não sabia de que… As festas deixavam de  fazer vibrar  seu coração.  Seus amigos  não encontravam  explicação  para aquilo que se passava  em seu interior. Pensavam até que tivesse  arranjado uma namorada, que estivesse apaixonado. Que estivesse enfermo de paixonite. De fato, parecia doente esse jovem de Assis.

Aos poucos ele vai clarificando as coisas num lento e dolorido processo de discernimento.  Primeiro é essa saudade de alguma coisa que não sabe o que é.  Depois essa sensação de  fragilidade, de não ter em mãos o fio de sua existência.  De estar como que sem mapa de caminhada. E ele podia dizer:

“Foi extremamente duro para mim.  Tinha tudo e nada tinha. Um vazio fora se cavando dentro do meu peito. Garganta seca e coração cheio de indagações. Andava a esmo, olhando as flores que pareciam menos belas.  Não tinha muita vontade de conviver, de cantar... era como se eu estivesse num beco sem saída.  Foi um ser humano todo chagado e fétido que me fez começar a descobrir um caminho.  As coisas começaram a mudar quando encontrei o leproso. Não podia ver esse tipo de gente.  Sentia náuseas, vontade de vomitar.  Esse ser  todo despedaço chegou perto de mim e eu o abracei.  Um gosto amargo que antigamente tinha na garganta quando via essa gente se transformou em doçura… Pouco depois desse abraço deixei o modo que eu tinha de viver e me dei conta que ele, o Altíssimo andava circulando em torno de mim… Tudo começara com o beijo do  leproso.  Andei por aqui e por ali.  Verdade que, na loja de meu pai, eu já  tinha experimentado um carinho especial pelos pobres… era Deus  trabalhando meu interior, trabalhando dentro de mim… Reconstruí igrejinhas em ruínas e comecei a me sentir atraído pelos lugares ermos e silenciosos. Era o Altíssimo colocando sua mão sobre mim… E houve esse Crucifixo de São Damião que me olhava com seus olhos negros como o negro mar,  pedindo que eu reconstruísse  a aquela capela e a Igreja…  Mas só compreendi  bem essas coisas mais tarde. Fi-lo com gosto. Tornei-me pedreiro, mas sempre com saudade de Deus, esperando que ele me dissesse o que eu deveria fazer de  minha vida.  Nas grutas  Cristo foi se aproximando de mim sem que eu me desse conta. Foi chegando de mansinho… E eu sempre com aquela pergunta:  ‘O que queres de mim?’ Não sabia dizer outra oração  senão esta:  ‘Grande e Magnífico Deus iluminai as trevas de minha alma, dai-me uma fé integra, uma esperança firme e uma caridade perfeita.  Concedei meu Deus que eu vos conheça muito para poder agir de acordo com a vossa santíssima vontade’. 

Fui deixando de lado  o que pudesse impedir meu seguimento de Cristo… Devo dizer que fiquei sempre impressionado com esse Altíssimo e Onipotente  Senhor que se tornara uma criancinha frágil e um  condenado abandonado no alto de uma cruz… Essas coisas me desconcertavam… Fui compreendo que  Deus grande se fizera pobreza, simplicidade,  humildade, proximidade. E fui me apaixonando pela pobreza que foi a veste do Filho de Deus.  Isso para mim se tornou fundamental.  O caminho pelo qual Deus veio ao homem foi o do despojamento e da pobreza.  Ora, não havia dúvidas para mim:  eu tinha que ser esposo da Pobreza, aquela dama bela e grande que havia desposado o Filho do Homem.  Pobreza  de meus caprichos, meus quereres, minha vontade de brilho e de poder… esvaziamento de mim mesmo.  Fui me tornando uma criatura livre… leve e senti uma fortíssima atração por irmãos que eu conhecia sem conhecer… a irmã água, o irmão  fogo, o irmão lobo, o irmão ladrão, a irmã  brisa… e esses  homens que foram chegando e quiseram viver  como eu vivia…  Que festa para meu coração… Sempre gostei quando as pessoas diziam… Frei  Francisco… Irmão Francisco… os irmãos de Francisco…

Na capelinha de Nossa Senhora dos Anjos  escutei a palavra decisiva… Ir pelo mundo, missionar,  dois a dois, sem nada, a não ser com a pobreza e a confiança em Deus… tornar amado o  Amado.  E lá fomos eu e meus irmãos… e assim passei a minha vida… vivendo rico das coisas que Deus foi me dando… restituindo ao Senhor o bem com o bem… cantando sempre a cantiga da gratidão… alegre por  estar cercado de irmãos… Meu grande segredo foi este:  encontrei o Evangelho e, por graça de Deus, não perdi nenhuma de suas palavras”.

Frei Almir Ribeiro Guimarães

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Eu falo com Deus (4)



Sou serva(o) de Deus. Sou operária(o) do Senhor. Por isso, tenho que fazer tudo para agradar o meu Patrão e seguir fielmente as Suas instruções;

Jesus, meu Chefe e Senhor, ajuda-me a dar o melhor de mim para que o meu trabalho seja feito com precisão e perfeição.

Que eu consiga dar a vida pela construção do Reino  de Deus com graça e sabedoria.

“Pois nós somos cooperadores de Deus, e vós, 
lavoura de Deus, construção de Deus” (1Cor 3,9)


Do Livro “Eu falo com Deus”, de Marina Adamo





(CIC) “Creio na ressurreição da carne”


O Credo cristão - profissão de nossa fé em Deus Pai, Filho e Espírito Santo, e em sua ação criadora, salvadora e santificadora - culmina na proclamação da ressurreição dos mortos, no fim dos tempos e na vida eterna.

Cremos firmemente - e assim esperamos - que, da mesma forma que Cristo ressuscitou verdadeiramente dos mortos, e vive para sempre, assim também, depois da morte, os justos viverão para sempre com Cristo ressuscitado e que Ele os ressuscitará  no último dia. Como a ressurreição de Cristo, também a nossa será  obra da Santíssima Trindade:

Se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vós, aquele que ressuscitou Cristo Jesus dentre os mortos dará  vida também aos vossos corpos mortais, mediante o seu Espírito que habita em vós (Rm 8,11).

O termo "carne" designa o homem em sua condição de fraqueza e de mortalidade. A "ressurreição da carne" significa que após a morte não haverá somente a vida da alma imortal, mas que mesmo os nossos "corpos mortais" (Rm 8,11) readquirirão vida.

Crer na ressurreição dos mortos foi, desde os inícios, um elemento essencial da fé cristã. "A confiança dos cristãos é a ressurreição dos mortos; crendo nela, somos cristãos" (Tertuliano).

Como podem alguns dentre vós dizer que não há  ressurreição dos mortos? Se não há  ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação é vazia é também a vossa fé. Mas não! Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram (1Cor 15,12-14-.20).



Catecismo da Igreja Católica, § 988-991

Leitura Bíblica: Lucas 9, 57-62


No Evangelho de hoje, três personagens anônimos aparecem para que, através deles, Jesus nos ensine quais os requisitos para segui-Lo. Estamos diante de um Mestre extremamente exigente...

Lucas narra que Jesus e os discípulos seguiam pelo caminho. Aparece um homem que disse estar pronto para segui-Lo. Jesus diz que para isso o homem deverá abraçar com alegria o desprendimento, que deverá se despojar de todo e qualquer bem, pois “o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça”. A outro, Jesus resolve chamar, porém esse pede para primeiro enterrar os seus mortos. E Jesus responde: “Deixa que os mortos enterrem os seus mortos”. Um terceiro homem diz que está pronto para seguir Jesus, mas pede para primeiro se despedir de sua família. Jesus responde a este: “Quem põe a mão no arado e olha para trás não está apto para o Reino de Deus”.

O primeiro e o terceiro tomam a iniciativa, desejosos de serem chamados a seguirem com Jesus. O segundo é Jesus quem chama. Nos três casos, a exigência é uma só: o desprendimento de outros vínculos, a disposição a enfrentar o desconforto. O Evangelho não deixa claro se os três homens seguiram junto com Jesus, mas é bem claro quanto ao que Jesus quer dos seus seguidores.

Hoje, somos muitos a experimentarmos o amor de Deus, mas nem tantos passam por uma conversão que os tornem capazes de seguirem Jesus verdadeiramente. Quantos de nós, após um momento em que nos deparamos com o amor de Deus, dizemos que estamos dispostos a caminhar com Ele, mas não queremos nos desapegar dos bens materiais, das festas, das turminhas que nos levam para um caminho contrário... Outros, somos chamados por Jesus a segui-Lo, mas pedimos um tempo, talvez no próximo ano, ou quem sabe quando estivermos aposentados... Outros, ainda, dizem a Jesus “vou segui-Lo, mas deixe antes ir ali ‘tomar a última’ da minha vida”, ou “essa será a minha última balada, por favor!”...

Tudo bem, Jesus acolhe cada uma de nossas declarações, afinal somos livres para decidirmos qual o caminho a tomar, mas lembra: Eu não tenho casa. Sou um andarilho. As raposas têm tocas e os pássaros se alojam em ninhos. Os que me seguem são peregrinos, mas a esses Deus não desampara: “Felizes os mansos, porque herdarão a terra” (Mt 5,5). Eu te dou a direção a seguir, você decide qual o melhor para a sua vida.

Senhor, envia o Seu Espírito para guiar os nossos passos pelo caminho da Salvação!

Nossa Senhora, Rainha dos Mártires, rogai por nós!


terça-feira, 2 de outubro de 2012

Um anjo em minha vida



Era uma manhã de feriado em São Paulo, quem conhece esta metrópole pode imaginar o silêncio e a solidão que povoam suas ruas em dias assim... Parece que quase nada se move e as pessoas estão em algum lugar do planeta, menos nas ruas, no trânsito ou no metrô, como acontece em dias comuns. Há um tempo atrás vivi uma experiência no mínimo interessante. Participei de um curso em São Paulo que, por incrível que pareça, teve início numa manhã de segunda-feira, num feriado nacional. Não tive escolha, precisei enfrentar o desafio de pegar ônibus, pedir informações e chegar ao local ainda desconhecido, sozinha. Mas foi exatamente neste dia em que vivi a maior experiência com um anjo em minha vida.

De volta à capital paulista neste final de semana, enquanto passeava pelas ruas, contemplava a beleza arquitetônica da cidade e permitia que a brisa do fim de tarde trouxesse-me às boas recordações e lembrei-me do "anjo". Naquele dia, acordei bem cedo e seguindo as orientações, dirigi-me ao ponto do ônibus. O problema é que tomei a direção contrária a que deveria e como não tinha a quem pedir informações fui seguindo em frente. Andei bastante, até que desconfiada das referências, fui visitada pelo medo e insegurança. Nesse instante, percebi vindo em minha direção um senhor, que caminhava tranquilo e solitário, como quem não tem pressa. Era a única pessoa que eu encontrara até aquele momento do dia. Sua presença não me causou medo nem dúvidas, como era de se esperar, e sim, paz e segurança. Quando lhe pedi informações, ouviu-me com atenção e fez-me compreender o quanto estava equivocada, oferecendo-me companhia, uma vez que estaria indo na direção que eu deveria seguir.

Hoje, fico imaginando como é que não relutei em segui-lo? O certo é que caminhamos juntos. O retorno pareceu bem mais rápido, alguns comentários sobre o tempo, o feriado ou coisas assim, e o silêncio reinou na maior parte da caminhada.
Chegando ao ponto determinado, avisou-me que eu deveria esperar ali, pois o ônibus logo viria. Conferiu as informações que eu trazia, reforçou as recomendações que já havia me dado e ausentou-se para um ponto ao lado, como se estivesse esperando outro transporte. Chegando o ônibus pelo qual eu esperava, sinalizou com a cabeça que estava certa, entrei e logo procurei assento ao lado da janela, a fim de acenar para ele na saída. Mas, para minha surpresa, já não o enxerguei, o que seria impossível naturalmente, pois não havia lugar onde ele pudesse entrar tão rápido e se tivesse caminhado seria provável enxergá-lo por perto.

Fiquei pensativa, mas precisava seguir meu rumo. O curso, os novos colegas e os acontecimentos do dia roubaram minha atenção do inusitado encontro matinal. Por um bom tempo não passou em minha mente a ideia de que aquele senhor fosse um anjo, até que durante uma conversa com o Professor Felipe Aquino, narrei a experiência e disse-lhe que se aquele homem aparentasse minha idade poderia até ser um anjo, já que a Palavra de Deus afirma que – ao nos criar – o Senhor nos confia um anjo da guarda.

Grande foi minha surpresa quando o professor explicou-me que os anjos de Deus se apresentam de acordo com as necessidades de cada momento. No meu caso, o aspecto de um senhor maduro com os traços de pai, transmitiram-me a segurança que um aspecto jovem como o meu não conseguiria transmitir na ocasião. Aí compreendi a intervenção divina e fiquei muito grata a Deus que, em sua bondade, está sempre conosco. Por amor, o Senhor envia seu socorro por intermédio de vários meios, indo além do nosso entendimento e expectativas. Cabe a nós acolhermos com docilidade e discernimento as suas intervenções e cofiarmos cada vez mais no seu amor.

Talvez você, como eu, já tenha vivido experiências assim e nem se deu conta de que estava sendo ajudado por um anjo... Em todo caso, sejamos gratos ao único Senhor que rege o céu e a terra e move o universo para nos fazer bem. A Ele todo louvor! A você ânimo e confiança, Deus não deixará que você se perca nas estradas da vida. Enviará seu anjo para ajudá-lo!

Djanira Silva, Comunidade Canção Nova