Então Pedro se aproximou dele e disse: Senhor, quantas vezes devo perdoar a meu irmão, quando ele pecar contra mim? Até sete vezes? Respondeu Jesus: Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. (Mateus 18, 21-22)
sábado, 26 de janeiro de 2013
Leitura Bíblica: 2Timóteo 2, 1-8
“Deus não nos
deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e de sobriedade”
(2Tm
1,7)
Comemoramos
hoje a festa de dois discípulos e companheiros de Paulo em suas andanças.
Belíssimo o trecho da carta a Timóteo, proclamado na liturgia de hoje.
Paulo
apresenta seu título de honra: “Paulo, apóstolo de Jesus Cristo pelo
desígnio de Deus…”. Paulo tem plena consciência de sua missão. Não
nasceu dele, mas foi uma determinação de Deus. Ele sabe que foi enviado a
anunciar os desígnios eternos de Deus que estavam ocultos em Deus e que
manifestaram-se a fragilidade e na glória de Cristo. Mais adiante ele
dirá que serve a esse Deus com consciência pura. Será enviado para os de
fora, para os gentios.
Estaria ele
diante de um Timóteo fragilizado? Algumas das expressões da carta
poderiam sugeri-lo. Há toda uma visão profundamente pascal da vida e das
coisas. Há uma imensa ternura.
Paulo dá
graças a Deus em suas orações quando se lembra de Timóteo. Há um interesse e
uma atenção especiais por Timóteo de sorte que o apóstolo gosta de colocar-se
diante do Senhor em sua companhia. Paulo lembra-se de suas
lágrimas, dos seus sofrimentos. Tem vontade de rever o companheiro e
assim por termo à sua tristeza de estar longe dele: “Lembrando-me das
tuas lágrimas, sinto grande desejo de rever-te e assim ficar cheio de alegria”.
Alegria dos missionários cujos corações batem uníssonos, alegria por uma causa
comum, vontade de estar com aquele que é também amigo do Mestre.
Belíssimas as amizades que a história revela entre pessoas unidas no Senhor,
aqueles que têm a alegria de tornar o Amor amado.
Paulo elogia a
fé do seu amigo. Esta fé vem de sua família, da avó Loide e da mãe
Eunice. Pormenor importante este: os pais são os primeiros e fundamentais
anunciadores da fé aos filhos. Não obrigam-nos a crer. Mas certamente a
solidez e lucidez da fé dos pais é de fundamental importância para que os
filhos comecem a aventura da fé. Parece que Timóteo
experimenta um desalento. “Exorto-te a reavivar a chama do dom de Deus
que recebeste pela imposição das minhas mãos”.
Há um convite
a que volte ao primeiro amor. O bispo Timóteo não pode
esquecer que recebeu a imposição da mãos, sinal da graça do Senhor, para que
ele pudesse ser administrador dos mistérios de Cristo. Cada um daqueles
que são padres sempre se lembram da preparação para sua ordenação e de como
viveram intensamente os momentos que precederam a cerimônia, o retiro
preparatório, a alegria vivida com os confrades, os primeiros
tempos do ministério. “Exorto-te a reavivar a chama do dom de
Deus…” Paulo, carinhosamente repreende o companheiro: “Deus não nos deu
um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e de sobriedade”.
Finalmente vem
a palavra mais forte e mais densa. Timóteo não pode ter medo
de suas fraquezas e das fraquezas dos outros. Será preciso sofrer com Paulo, em
outras palavras, viver o mistério pascal em sua carne. “Não te
envergonhes do testemunho de nosso Senhor nem de mim, seu prisioneiro,
sofre comigo pelo evangelho, fortificado pelo poder de Deus”.
Frei Almir
Ribeiro Guimarães
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
Conversão de São Paulo
Comemoramos hoje a conversão de São Paulo. Difícil
qualificar esse gigante de todos os tempos. Houve um momento em sua
caminhada que o Ressuscitado dele se aproximou: “Saulo, Saulo, por que me
persegues!” Esse intrépido defensor da fé judaica com a força e a
luminosidade desta pergunta cai por terra, começa a questionar sua vida,
é convidado a rever a maneira como vinha se portando frente aos discípulos de
Jesus. Naquele momento tudo nele é confusão e perplexidade. Ele abandona seus
projetos de perseguir os cristãos, recolhe-se no silencio e no deserto,
deixa-se formar pela palavra de homens de fé, faz-se batizar, perde e
recupera a vista. Tempo breve, tempo mais longo? Há um trabalhar da graça
do Ressuscitado e estava formado o mais ardoroso de todos os discípulos.
Um andarilho sempre disposto a caminhar. Não se instala.
Há dentro dele um fogo e ardor que não pode controlar. Tem vontade
imensa de estar com seu Cristo Jesus.
Não sabe, no entanto, o que é melhor: ir para o
Senhor ou se fazer até o fim de seus dias o grande anunciador do mistério
oculto em Deus e manifestado em Cristo, o Senhor. Hesita entre uma e
outra escolha. Caminha sem se preocupar com detalhes. Sabe viver com o
muito e também na pobreza. Trabalha com suas próprias mãos para não ser peso para
ninguém. Cria comunidades. Fala, prega, insiste a gosto e contragosto e
deixa um irmão mais esclarecido para cuidar das comunidades de Corinto, de
Éfeso ou de Filipos. Sabe vociferar contra os que impedem a
difusão do evangelho e, de outro lado, se reveste de ternura. Escreve
cartas, coloca por escrito aquilo que vai compreendendo por meio da assistência
do Espírito. Vê-se forçado a recriminar aqueles que querem
indispô-lo com Pedro e Tiago. Sente, no entanto, que ele não pode ficar
fechado no círculo dos judeus. Precisa ir pelo mundo. Vira a
página das prescrições judaicas… Não se pode colocar pano novo em roupa velha…
Fica todo possuído de admiração por seu Senhor. Ele,
de condição divina se tornou servo obediente até à morte e morte de cruz.
Compreende a largura, a profundidade, o comprimento do amor de Deus
manifestado em Cristo Jesus. Tem como lixo tudo o que não for
Cristo Jesus.
João Crisótomo assim o descreve: “No meio das insídias dos
inimigos, conquistava contínuas vitórias triunfando de todos os
seus assaltos. E, em toda parte, flagelado, coberto de injúrias e
maldições, como se desfilasse num cortejo triunfal, erguendo numerosos troféus
gloriava-se e dava graças a Deus, dizendo: Graças sejam dadas a
Deus que nos faz sempre triunfar (2Cor
2,14). Por isso, corria ao encontro das humilhações e das ofensas
que suportava por causa da pregação, com mais entusiasmo do que nós quando nos
apressamos para alcançar o prazer das honrarias; aspirava mais pela
morte do que nós pela vida: ansiava mais pela pobreza do que nós pela
riqueza; e desejava muito mais o trabalho sem descanso do que
nós o descanso depois do trabalho. Uma só coisa o amedrontava e fazia
temer: ofender a Deus. E uma só coisa desejava: agradar a Deus (L.Horas III, p.
1209).
Frei Almir
Ribeiro Guimarães
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
Vinte anos depois
Carlos e
Regina estavam eufóricos. Iriam, enfim, realizar o sonho que os acompanhava nos
últimos anos. A igreja para o casamento tinha sido escolhida com carinho; os
convites foram distribuídos a tempo e toda a festa estava preparada nos mínimos
detalhes. Não faltaram as brincadeiras dos amigos: “Até que enfim! Até que
enfim!...” Sentiam que valera a pena terem namorado durante alguns anos, como
também guardavam belas recordações dos meses de noivado. Podiam dizer que se
conheciam bem. Diante do que era essencial, estavam plenamente de acordo. Só
faltava mesmo dizerem mutuamente o “sim” diante de Deus e dos homens.
O “sim” – “Eu
te recebo e te prometo ser fiel, amar-te e respeitar-te na alegria e na
tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida” – foi dito com
alegria. Ela estava trêmula, emocionada. Sua voz mal saiu. Ele estava mais
sério do que de costume. Ali, diante do altar, até se lembrou da primeira vez
que, logo que começou a estudar, foi obrigado a recitar uma poesia diante dos
colegas: todo mundo estava olhando para ele e a poesia não saía. Parecia que
alguém tapava sua boca...
Agora, no
momento dos cumprimentos, os noivos perceberam a sinceridade dos amigos que
lhes desejavam felicidades. Haveria, no mundo, um casal mais feliz? A vida
abria um largo sorriso para eles. Eles, por sua vez, olhavam para o futuro com
confiança e alegria.
Vinte anos
depois do casamento, custava ao sacerdote se convencer do que ouvia. Não
tivesse motivos suficientes para acreditar em Luís Antônio, filho de Carlos e
Regina, poderia achar que estivesse exagerando. Fora o jovem que, livremente, o
procurara. Ouvindo-o, era difícil se convencer de que aquele jovem tivesse
somente 18 anos. Em alguns momentos, o sacerdote tinha a impressão de estar
diante de alguém que já tivesse vivido uns 40 ou 50 anos. Era-lhe doloroso
ouvir uma história marcada por tanta dor e solidão. Nada faltava ao jovem:
tinha bela casa, frequentava a faculdade e, para seu próximo aniversário, os
pais haviam prometido um presente especial. Mas o jovem dizia não ser feliz.
Seu pai,
ocupado demais com os negócios, não tinha tempo nem para ele, Luís Antônio, nem
para os outros filhos. Levava uma vida agitada, cheia de compromissos, mas
certo de que trabalhava para a família, unicamente para o bem dos filhos.
Afinal, dava-lhes o necessário e tudo o que podia. Estava convicto de que eles
não tinham nada de que reclamar.
Sua mãe tinha
a certeza de que era a melhor mãe do mundo. Porém, de tão ocupada, não percebia
que, na verdade, pouco conhecia da vida deles, dos amigos que tinham e das
preocupações dos filhos. Nem se lembrava da última conversa mais profunda que
tivera com eles. Conhecia, tão somente, uma série de fatos, fruto das conversas
nas refeições.
Luís Antônio
não se sentia amado: esse era o seu drama. O drama de seus pais era outro:
conscientes de serem os melhores pais do mundo, não compreendiam por que o
filho os agredia tanto. Como não eram capazes de se colocar no lugar do filho,
não conseguiam avaliar sua solidão. Também não percebiam que a educação que
davam aos filhos sofria uma concorrência imensa: concorria com as idéias dos
meios de comunicação social, dos professores, dos colegas; do mundo todo,
enfim. Não poucas vezes, havia oposição total entre tais ideias. Luís Antônio,
desorientado, precisava urgentemente da atenção, da presença e do amor dos
pais. No momento, essa era a única linguagem que poderia atingi-lo, a única que
entenderia. No entanto, ilhados em seus próprios problemas e assoberbados por
inúmeras tarefas e preocupações, os pais não viam as barreias que os
distanciavam do filho.
Onde, afinal,
ficaram os sonhos de vinte anos atrás? Em que lugar do mundo foram enterradas
aquelas frases do noivado: “Carlos, vamos viver só para nossos filhos!” e
“Regina, nosso lar será o melhor do mundo! Vamos transmitir a nossos
filhos todo o amor que há em nós!...”?
Que estranha
vida é essa que deforma e destrói tantos sonhos?...
Dom Murilo S. R. Krieger,
Arcebispo de Salvador/BA
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
Filtros
Sócrates,
dentre os filósofos gregos, era reconhecido pela pedagogia afável com seus
orientandos, sobretudo pela praticidade objetiva e direta com que comunicava
larga experiência de vida. Num certo dia ele se encontra com alguém que lhe
diz: Sócrates, sabe o que acabo de ouvir sobre um de seus alunos? Um momento,
respondeu Sócrates.
Antes de me
dizer, gostaria que você passasse por um pequeno teste. Chama-se teste dos três
filtros. O que significa isso, diz seu interlocutor? Antes de me contar o que
quer que seja sobre um aluno meu, é bom pensar um pouco e filtrar o que vais me
dizer. O primeiro filtro é o da verdade. Estás completamente seguro de que o
que me vai dizer é verdade? Bem, eu acabo de saber, redarguiu o homem. Então,
sem saber se é verdade, ainda assim queres me contar? Vamos ao segundo filtro,
que é o da bondade. Queres me contar algo de bom sobre meu aluno? Não, pelo
contrário, respondeu. Então, intervém Sócrates, tu queres me contar algo de
ruim sobre ele, se tu não sabes se é verdade? Ora veja! Ainda podes passar no
teste. Porém ainda resta o terceiro filtro que é o da utilidade. O que queres
me contar vai ser útil para mim? Portanto, conclui Sócrates, se o que tu queres
me contar pode não ser verdade, pode não ser bom e pode não ser útil. E daí,
para que me contar? A história “se non è vera, è bene trovata”.
Geralmente o
ser humano afirma coisas sobre as quais ouviu alguém falar, ou então opina
sobre realidades sem conhecimento de causa e não conhece bem ou nem sequer
conhece. Sempre a gente acha alguma coisa sobre alguém ou a gente se atreve a
julgar outrem porque “ouviu o galo cantar” em algum canto. Há momentos nos
quais a vida de alguém pode estar em jogo, julgada causticamente pelos padrões
da moda. Uma vida pode ser destruída pela fixação mental de alguém que se
antipatizou. Nós podemos criar fantasmas em nosso imaginário neurótico. Isso
pode se tornar obsessão e loucura.
Nesse e em
tantos casos precisaremos de ajuda. É muito fácil precipitar-se de forma
primária. Uma pedra lançada ao rosto não volta atrás pelo erro cometido. O
divino Mestre nos adverte para que não incorramos no juízo precipitado de
alguma opinião pessoal, não raro, equivocada ou não esclarecida: “Não julgueis
e não sereis julgados, pois com a mesma que julgais, sereis julgados” (cf. Mt.
7, 1-2). Jesus nos oferece um contraponto sobre o desperdício de atitudes mal
interpretadas por gente que não quer nada com a vida: “Não atireis aos cães o
que é santo, nem atireis pérolas aos porcos, para que não as pisem e,
voltando-se contra vós, vos estraçalhem” (cf. Mt. 7,6).
Dom Aldo
Pagotto, Arcebispo da Paraíba
domingo, 20 de janeiro de 2013
#FicaAdica 61
Estar
cheio de vida é respirar profundamente, mover-se livremente e sentir com
intensidade. E tal ação delimita um tempo de respiração e inspiração, de
recolhimento e expansão, de doação e de recebimento. Assim é a vida na sua
intensidade: requer vários momentos, várias estações, dias e noites, chuvas,
sol e luar… A vida, meu caro, é uma explosão de alegria; ela é sopro que vem do
Criador e faz-nos sentir que participamos de uma ciranda de amor, pois é pulsação
do eterno!
Então,
não fique se lamentando e nem se feche em si mesmo, dando espaço para a
depressão e para a tristeza. Cante a sua canção, permita-se alguns momentos
diferentes e fora do padrão: dance e cante na chuva, mergulhe numa cachoeira,
ajunte pedrinhas na beira de uma riacho, faça castelos de areia na praia com
seus filhos… Faça da sua vida algo grandioso e terás muitos motivos para louvar
e bendizer o Criador!
Frei
Paulo Sérgio, ofm
Leitura Bíblica: João 2, 1-11
“Houve
um casamento em Caná da Galileia. A mãe de Jesus estava presente...” (Jo 2,1)
Um casamento na roça. Em Caná de Galiléia. Mal
iniciada a festa, o vinho vem a faltar. Para os padrões daquela sociedade,
casamento sem vinho é um fracasso. Onde está o vinho, aí está a alegria. Tudo
faz pensar em gente pobre, um noivo sem muitos recursos e – quem sabe – uma
inesperada afluência de “convidados”: os numerosos discípulos que já
acompanhavam Jesus de Nazaré.
Mas, como anota o evangelista João, “estava lá a
Mãe de Jesus”. E foi ela quem percebeu a situação constrangedora. Enquanto os
convivas cuidam de si mesmos, ela está atenta às necessidades dos outros. Por
isso mesmo, Maria se dirige ao Filho e apresenta-lhe a situação: “Eles não têm
vinho...” E o faz como quem sabe que seu Filho tem condições de resolver o
problema. A Mãe conhece o seu Filho.
Até onde dá a perceber o texto um tanto obscuro,
Jesus tenta esquivar-se do caso, como se não tivesse nada a ver com a situação.
Maria ouve a resposta do Filho, mas age como quem vê por um outro ângulo. E dá
aos serventes – seguramente primos e parentes do noivo – a ordem que ainda
ressoa em nossos ouvidos: “Fazei tudo o que ele vos disser!” A obediência deles
garante a todos um agradável desfecho: notável quantidade de vinho, somada à
qualidade ainda mais notável!
Esta passagem do Evangelho de João, por mais
pitoresca que ela seja, acaba por se tornar “incômoda” para aqueles que duvidam
da intercessão da Mãe de Deus. Temos uma situação bem concreta: há uma
necessidade material, Maria a percebe e pede a interferência de Jesus. Apesar
de uma recusa inicial, o Mestre “cede” e faz o primeiro milagre de sua vida
pública.
Aliás, nada mais claro como imagem da Igreja que
intercede junto a Deus pelas necessidades do povo. É em Maria que a Igreja se
inspira para assumir sua missão de intercessora.
E tem mais! Não se trata de alguma cura que pudesse
ser traduzida como fenômeno “psicossomático” ou alucinação coletiva: trata-se
de uma autêntica transformação da matéria, água transmudada em vinho, com todas
aquelas diferenças organolépticas que envolvem cor, aroma e sabor.
Daquele dia em diante, os pobres da roça ficaram
sabendo que a Mãe pode influir nas decisões do Filho. Ficaram sabendo que a
misericórdia move o poder. Os acadêmicos continuam esperneando. Mas os pobres
preferem crer em seus próprios sentidos...
Orai sem cessar: “Mãe dos pobres, rogai por nós!”
Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova
Aliança.
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