sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

(CIC) O sentido da morte cristã



Graças a Cristo, a morte cristã tem um sentido positivo. "Para mim, a vida é Cristo, e morrer é lucro" (Fl 1,21). "Fiel é esta palavra: se com Ele morremos, com Ele viveremos" (2Tm 1,11). A novidade essencial da morte cristã está  nisto: pelo Batismo, o cristão já está sacramentalmente "morto com Cristo", para Viver de uma vida nova; e, se morrermos na graça de Cristo, a morte física consuma este "morrer com Cristo" e completa, assim, nossa incorporação a ele em seu ato redentor:

É bom para mim morrer em ("eis") Cristo Jesus, melhor do que reinar até as extremidades da terra. É a Ele que procuro, Ele que morreu por nós: é Ele que quero, Ele que ressuscitou por nós. Meu nascimento aproxima-se. (...) Deixai-me receber a pura luz; quando tiver chegado lá, serei homem.  (Sto. Inácio de Antioquia)

Na morte, Deus chama o homem a si. É por isso que o cristão pode sentir, em relação à morte, um desejo semelhante ao de São Paulo: "O meu desejo é partir e ir estar com Cristo" (Fl 1,23); e pode transformar sua própria morte em um ato de obediência e de amor ao Pai, a exemplo de Cristo:

Meu desejo terrestre foi crucificado; (...) há em mim uma  água viva que murmura e que diz dentro de mim: "Vem para o Pai". (Sto. Inácio de Antioquia)

Quero ver a Deus, e para vê-lo é preciso morrer. (Sta. Teresa de Jesus)

Eu não morro, entro na vida. (Sta. Terezinha do Menino Jesus)

A visão cristã da morte é expressa de forma privilegiada na liturgia da Igreja:

Senhor, para os que creem em vós, a vida não é tirada, mas transformada. E, desfeito nosso corpo mortal, nos é dado, nos céus, um corpo imperecível.

A morte é o fim da peregrinação terrestre do homem, do tempo de graça e de misericórdia que Deus lhe oferece para realizar sua vida terrestre segundo o projeto divino e para decidir seu destino último. Quando tiver terminado "o único curso de nossa vida terrestre", não voltaremos mais a outras vidas terrestres. "Os homens devem morrer uma só vez" (Hb 9,27). Não existe "reencarnação" depois da morte.

A Igreja nos encoraja à preparação da hora de nossa morte ("Livra-nos, Senhor, de uma morte súbita e imprevista": antiga ladainha de todos os santos, a pedir à Mãe de Deus que interceda por nós "na hora de nossa morte" (oração da "Ave-Maria") e a entregar-nos a São José, padroeiro da boa morte:

Em todas as tuas ações, em todos os teus pensamentos deverias comportar-te como se tivesses de morrer hoje. Se tua consciência estivesse tranquila, não terias muito medo da morte. Seria melhor evitar o pecado que fugir da morte. Se não estás preparado hoje, como o estarás amanhã? (Imitação de Cristo)

Louvado sejais, meu Senhor, por nossa irmã, a morte corporal, da qual homem algum pode escapar. Ai dos que morrerem em pecado mortal, felizes aqueles que ela encontrar conforme a vossa santíssima vontade, pois a segunda morte não lhes fará  mal. (São Francisco de Assis)


Catecismo da Igreja Católica, § 1010-1014

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Começando o tempo favorável da Quaresma



Começamos o santo e propício tempo da Quaresma.  Durante quarenta dias, os cristãos, lá onde vivem, lá onde são discípulos do Senhor, vão viver um tempo caracterizado pelo empenho  na linha da conversão evangélica.  Somos companheiros de Jesus que vai para o deserto preparar-se para sua missão, deserto espaço de silêncio, de interiorização, mas também de combate contra o espírito do mal. Na oração de abertura da Missa de hoje, pedimos que “a penitência nos fortaleça no combate contra o espírito do mal”.  Arregaçamos as mangas e organizamos, da melhor maneira possível, essa riquíssima quadra do ano que nos leva até o esplendor da manhã de Páscoa, centro de nossa fé.

Joel,  o profeta, nos convida a rasgar os corações e não as vestes. Uns e outros experimentamos um sério mal-estar: não conseguimos ser fiéis aos carinhos e às manifestações do Senhor.  Há um sentimento de remorso que, por vezes, toma conta de nós.  Será preciso  “rasgar” os corações, mudar o interior para que brilhante seja o exterior. É tempo de jejuarmos de nós mesmos, de nossos interesses pequenos, de nossas preferências tacanhas. Há um convite explícito a que visitemos o coração, nutramos sentimentos nobres de arrependimento e formulemos propósitos de conversão.  Estamos  começando o tempo favorável. Paulo nos diz: “Em nome de Cristo  nós vos suplicamos: deixai-vos reconciliar com Deus”.  Não se trata apenas da recepção do sacramento da reconciliação numa rápida celebração quaresmal.  Trata-se de entrar no caminho dos penitentes, daqueles que têm o amargo como doce, e o doce como amargo.  O Apóstolo prossegue:  “É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação”.

Os cristãos se caracterizam por uma lisura de vida, por um comportamento sem duplicidade, por uma existência transparente.  Não cultivam a fachada, não se “maquiam” com água benta e piedosas palavras. Não fazem suas obras diante dos homens. Quando operam o bem, quando dão esmolas, quando se engajam em  promover a justiça, em valorizar o ser humano não tocam a trombeta.  Fazem o bem sem alarde, sem esperar recompensa. Quando rezam, entram no quarto e se dirigem ao Pai sem adereços e pompas. O Pai ouve os seus no silêncio.  Quando  jejuam, quando se privam das coisas lícitas para fortalecer o interior mostram um semblante alegre  e exalam  o perfume da discrição.

Assim, começamos a viver o tempo da Quaresma.  Colocamos cinza em nossas frontes.  Queremos nos recordar que somos pó e nada mais que pó, mas que somos amados por aquele que transforma esse pó que somos nós em luminosos cidadãos de seu coração e de seu reino.  O pedido da Quaresma é bem  este:  “Criai em mim um coração que seja puro, dai-me de novo um  espírito decidido”.

Frei Almir Ribeiro Guimarães

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Por que o Papa renunciou?

Non prævalebunt!

Na manhã deste dia 11 de fevereiro, memória de Nossa Senhora de Lourdes, fomos colhidos pela notícia espantosa de que o Santo Padre, o Papa Bento XVI, renunciou ao ministério de Bispo de Roma, Sucessor de São Pedro.

Em discurso ao Consistório dos Cardeais reunidos diante dele, o Papa declarou que o faz "bem consciente da gravidade deste ato" e "com plena liberdade".

É evidente que a renúncia de um Papa é algo inaudito nos tempos modernos. A última renúncia foi de Gregório XII em 1415. A notícia nos deixa a todos perplexos e com um grande sentimento de perda. Mas este sentimento é um bom sinal. É sinal de que amamos o Papa, e, porque o amamos, estamos chocados com a sua decisão.
Diante da novidade do gesto, no entanto, já começam a surgir teorias fabulosas de que o Papa estaria renunciando por causa das dificuldades de seu pontificado ou que até mesmo estaria sofrendo pressões não se sabe de que espécie.

O fato, porém, é que, conhecendo a personalidade e o pensamento de Bento XVI, nada nos autoriza a arriscar esta hipótese. No seu livro Luz do mundo
(p. 48-49), o Santo Padre já previa esta possibilidade da renúncia. Durante a entrevista, o Santo Padre falava com o jornalista Peter Seewald a respeito dos escândalos de pedofilia e as pressões:

"Pergunta: Pensou, alguma vez, em pedir demissão?

Resposta: Quando o perigo é grande, não é possível escapar. Eis por que este, certamente, não é o momento de demitir-se. Precisamente em momentos como estes é que se faz necessário resistir e superar as situações difíceis. Este é o meu pensamento. É possível demitir-se em um momento de serenidade, ou quando simplesmente já não se aguenta. Não é possível, porém, fugir justamente no momento do perigo e dizer: "Que outro cuide disso!"

Pergunta: Por conseguinte, é imaginável uma situação na qual o senhor considere oportuno que o Papa se demita?

Resposta: Sim. Quando um Papa chega à clara consciência de já não se encontrar em condições físicas, mentais e espirituais de exercer o encargo que lhe foi confiado, então tem o direito – e, em algumas circunstâncias, também o dever – de pedir demissão.
Ou seja, o próprio Papa reconhece que a renúncia diante de crises e pressões seria uma imoralidade. Seria a fuga do pastor e o abandono das ovelhas, como ele sabiamente nos exortava em sua homilia de início de ministério: "Rezai por mim, para que eu não fuja, por receio, diante dos lobos" (24/04/2005)."

Se hoje o Papa renuncia, podemos deduzir destas suas palavras programáticas, é porque vê que seja um momento de serenidade, em que os vagalhões das grandes crises parecem ter dado uma trégua, ao menos temporária, à barca de Pedro.

Podemos também deduzir que o Santo Padre escolheu o timing mais oportuno para sua renúncia, considerando dois aspectos:

Ele está plenamente lúcido. Seria realmente bastante inquietante que a notícia da renúncia viesse num momento em que, por razões de senilidade ou por alguma outra circunstância, pudéssemos legitimamente duvidar que o Santo Padre não estivesse compos sui (dono de si).

Estamos no início da quaresma. Com a quaresma a Igreja entra num grande retiro espiritual e não há momento mais oportuno para prepararmos um conclave através de nossas orações e sacrifícios espirituais. O novo Pontífice irá inaugurar seu ministério na proximidade da Páscoa do Senhor.

Por isto, apesar do grande sentimento de vazio e de perplexidade deste momento solene de nossa história, nada nos autoriza moralmente a duvidar do gesto do Santo Padre e nem deixar de depositar em Deus nossa confiança.

Peçamos com a Virgem de Lourdes que o Senhor, mais uma vez, derrame o dom do Espírito Santo sobre a sua Igreja e que o Colégio dos Cardeais escolha com sabedoria um novo Vigário de Cristo.

Nosso coração, cheio de gratidão pelo ministério de Bento XVI, gostaria que esta notícia não fosse verdade. Mas, se confiamos no Papa até aqui, porque agora negar-lhe a nossa confiança? Como filhos, nos vem a vontade de dizer: "não se vá, não nos deixe, não nos abandone!"

Mas não estamos sendo abandonados. A Igreja de Cristo permanecerá eternamente. O que o gesto do Papa então pede de nós, é mais do que confiança. É fé!

Fé naquelas palavras ditas por Nosso Senhor a São Pedro e a seus sucessores: "As portas do inferno não prevalecerão!" (Mt 16, 18).

Estas palavras permanecem inabaláveis através dos séculos!

Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Salmo 137




Vou cantar-vos, ante os anjos, ó Senhor, e ante o vosso templo vou prostrar-me.

Ó Senhor, de coração eu vos dou graças, porque ouvistes as palavras dos meus lábios! Perante os vossos anjos vou cantar-vos e ante o vosso templo vou prostrar-me.

Eu agradeço vosso amor, vossa verdade, porque fizestes muito mais que prometestes; naquele dia em que gritei, vós me escutastes e aumentastes o vigor da minha alma.

Os reis de toda a terra hão de louvar-vos, quando ouvirem, ó Senhor, vossa promessa. Hão de cantar vossos caminhos e dirão: “Como a glória do Senhor é grandiosa!”

Estendereis o vosso braço em meu auxílio e havereis de me salvar com vossa destra. Contemplai em mim a obra começada; ó Senhor, vossa bondade é para sempre! Eu vos peço: não deixeis inacabada esta obra que fizeram vossas mãos!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

“Eu não dou conta”

Vida cristã é muito mais que prazer. Experiência de Deus é você não mais saber quem você é, mas recordar quem é Jesus em você. Há tantos de nós intoxicados pela vida, pela palavra do outro. Quantas vezes você não fez a experiência de chegar a um lugar e adoecer?

A grande artimanha do diabo é minar nossa saúde espiritual, colocar desânimo na nossa vida de oração. Há pessoas que se amarguram por não ter dado conta da vida inteira, mas não fizeram sua parte no milagre.

Se nós tivéssemos a possibilidade de analisar nosso espírito hoje, ainda veríamos que permanecemos tão secos e paralisados nos nossos medos. Quer dar força ao inimigo? Tenha medo. O seu medo o faz entregar-se a ele. Muitas vezes, o mar da vida nos torna vítimas. Quantas pessoas são vítimas daqueles que estão ao lado delas! Coração que não faz a experiência de se mergulhar no Espírito Santo sempre será vítima do inimigo.

"Eu não dou conta". Para essa frase não precisa de esforço; e cada vez que dizemos isso, perdemos o movimento das águas e a chance de atravessar o mar. Tornamo-nos vítimas, porque perdemos a chance de dizer: "eu não aceito". Tenha a coragem de dizer: "Esse mar não mais irá me afogar".

O que faz um homem ser de fé é a resposta que dá diante da insegurança - isso é Cristianismo. Não é uma postura angelical, é uma forma de se tornar guerreiro, soldado. Coragem! Vitória é o que Deus quer celebrar na nossa vida por meio da fé.

Quando você tiver a coragem de colocar o pé na água, você já poderá sorrir, porque seu inimigo tem os "pés de barro" e, nas águas do Espírito Santo, ele irá se afogar. A única forma de você vencer o mal é colocar os pés onde ele não pode estar.

Padre Fábio de Melo

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

#FicaAdica 64



Fique atento: cá e lá, Deus nos dá a terrível experiência de perdermos o controle de algumas situações que para nós, são importantes. Neste momento, o que importa é ceder, deixar que Deus cuide, abandonar-se mesmo com resistências e experimentar que algumas circunstâncias nos são permitidas para que Deus tenha total controle sobre elas. Nossa cooperação é ceder! Muitos não experimentam maravilhas, porque teimam em ter controle sobre tudo.

Ricardo Sá




terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Leitura Bíblica: Marcos 5,21-43

É longo o trecho do evangelho de Marcos hoje proclamado na liturgia.  Jairo  tem a filha do doente e vem pedir sua cura a Jesus.   Uma mulher que tinha fluxo de sangue também se aproxima  confiantemente de Jesus.  Estamos diante do tema da fé-confiança nesse homem que era diferente.

A multidão era numerosa e Jesus permaneceu na praia. Jairo, um dos chefes da sinagoga, vem exprimir a situação que vive e fazer um pedido. Cai aos pés de Jesus, segundo o relato de Marcos.  “Venho te pedir alguma coisas com insistência.  Minha filhinha está nas últimas”.  Jesus atende o pedido e começa a acompanhar Jairo até sua casa. A história de Jairo é cortada.  Uma mulher com fluxo de sangue toca  em Jesus.  Mais adiante  Marcos continuará o relato sobre a filha de Jairo.  Jesus, mais tarde, vai tratar do caso da hemoroíssa.  Pessoas da casa do chefe da sinagoga chegam:  “A menina já morreu. Para que incomodar o  Mestre”. Em seu estilo simples e direto Marcos  coloca os pormenores.  Jesus escuta o que diziam os mensageiros e fala com energia: “Não tenhas medo! Basta ter fé!” Jesus não quer que a multidão o acompanhe.  Somente  Pedro, Tiago e João poderão ir com ele e o pessoal da casa do chefe da sinagoga. Havia agitação. Gente chorando, gritando.  Jesus provavelmente está tocado interiormente.  Emocionado?  Sofrendo com a morte da menina?  Há toda uma confusão  no local.  “Por que isso tudo?  Esta menina está apenas dormindo”.  Novamente Jesus restringe os espectadores já que alguns estavam caçoando  dele.  Poucos assistirão ao desfecho: ficarão junto da menina e de  Jesus o pai e a mãe da criança e os três apóstolos.  Tem-se a impressão que Jesus quer  que esses três possam depois testemunhar o que viram.  E vem o gesto de desfecho, linguagem de vida e sinal da ressurreição.  “Jesus pegou  a mão da menina e disse: Talitá cum – que quer dizer: Menina, levanta-te”.  A menina levantou-se imediatamente e começou a andar.  E Marcos nos oferece o delicado pormenor: ela tinha doze anos.  Na última linha do texto proclamado  outro detalhe:  Jesus manda que deem de comer à menina.  Ressurreição da menina, sinal da ressurreição. Os que  morrem a si  e renascem para vida nova em Cristo são pessoas levantadas da indolência e da inércia.

Temos que voltar ao caso do sinal da cura da mulher que sofria de hemorragia. A menina tinha doze anos e a mulher sofria da doença há doze anos.  A pobre mulher piorava cada vez mais.  Já tinha gasto todo seu dinheiro com médicos, sem resultado algum.  Novamente Marcos se compraz em falar de pormenores.  Há dez anos estava doente e sofrera demais na mão de muitos médicos. Cada vez piorava mais.  Ela chega discretamente. Não brada, não grita. Quer ao menos tocar no Mestre.  Toca a roupa. Fica curada. Experimenta grande exultação.  Jesus pergunta:  “Quem me tocou?”  A mulher toda gratidão e medo  caiu aos pés de Jesus e ouve:  “Filha, tua fé te curou, vai em paz e fica curada desta doença”.

Frei Almir Ribeiro Guimarães