Muitas coisas
que interessam à curiosidade humana acerca de Jesus não figuram nos Evangelhos.
Quase nada é dito sobre sua vida em Nazaré, e mesmo uma grande parte de sua
vida pública não é relatada. O que foi escrito nos Evangelhos foi "para
crerdes que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a
vida em seu nome" (Jo 20, 31).
Os Evangelhos
foram escritos por homens que estiveram entre os primeiros a ter a fé e que
queriam compartilhá-la com outros. Depois de terem conhecido na fé quem é
Jesus, puderam ver e fazer ver os traços de seu mistério em toda a sua vida
terrestre. Desde os paninhos de sua natividade até o vinagre de sua Paixão e o sudário
de sua Ressurreição, tudo na vida de Jesus é sinal de seu Mistério. Por meio de
seus gestos, de seus milagres, de suas palavras, foi revelado que "nele
habita corporalmente toda a plenitude da divindade" (Cl 2,9). Sua
humanidade aparece, assim, como o "sacramento", isto é, o sinal e o
instrumento de sua divindade e da salvação que ele traz: o que havia de visível
em sua vida terrestre apontava para o mistério invisível de sua filiação divina
e de sua missão redentora.
Toda a vida de
Cristo é Revelação do Pai: suas palavras e seus atos, seus silêncios e seus
sofrimentos, sua maneira de ser e de falar. Jesus pode dizer: "Quem me vê,
vê o Pai" (Jo 14,9); e o Pai pode dizer: "Este é o meu Filho, o
Eleito; ouvi-o" (Lc 9,35). Tendo Nosso Senhor se feito homem para cumprir
a vontade do Pai, Os mínimos traços de seus mistérios nos manifestam "o
amor de Deus por nos".
Toda a vida de
Cristo é mistério de Redenção. A Redenção nos vem antes de tudo pelo sangue da
Cruz, mas este mistério está em ação em toda a vida de Cristo: já em sua
Encarnação, pela qual, fazendo-se pobre, nos enriqueceu por sua pobreza; em sua
vida oculta, que, por sua submissão, serve de reparação para nossa insubmissão;
em sua palavra, que purifica seus ouvintes; em suas curas e em seus exorcismos,
pelos quais "levou nossas fraquezas e carregou nossas doenças" (Mt
8,17); em sua Ressurreição, pela qual nos justifica.
Toda a vida de
Cristo é mistério de Recapitulação. Tudo o que Jesus fez, disse e sofreu tinha
por meta restabelecer o homem caído em sua vocação primeira:
Quando ele se encarnou e se fez homem, recapitulou em si mesmo a longa história dos homens e, em resumo, nos proporcionou a salvação, de sorte que aquilo que havíamos perdido em Adão, isto é, sermos à imagem e à semelhança de Deus, o recuperamos em Cristo Jesus. É, aliás, por isso que Cristo passou por todas as idades da vida, restituindo com isto a os homens a comunhão com Deus. (Sto. Irineu)
Catecismo da Igreja Católica, §§ 514-518
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