segunda-feira, 2 de abril de 2012

(CIC) A realidade do pecado

O pecado está  presente na história do homem: seria inútil tentar ignorá-lo ou dar a esta realidade obscura outros nomes. Para tentarmos compreender o que é o pecado, é preciso antes de tudo reconhecer a ligação profunda do homem com Deus, pois fora desta relação o mal do pecado não é desmascarado em sua verdadeira identidade de recusa e de oposição a Deus, embora continue a pesar sobre a vida do homem e sobre a história.

A realidade do pecado, e mais particularmente a do pecado das origens, só se entende à luz da Revelação divina. Sem o conhecimento de Deus que ela nos dá  não se pode reconhecer com clareza o pecado, e somos tentados a explicá-lo unicamente como uma falta de crescimento, como uma fraqueza psicológica, um erro a consequência necessária de uma estrutura social inadequada etc. Somente à luz do desígnio de Deus sobre o homem compreende-se que o pecado é um abuso da liberdade que Deus dá  às pessoas criadas para que possam amá-lo e amar-se mutuamente.

Com o progresso da Revelação, é esclarecida também a realidade do pecado. Embora o Povo de Deus do Antigo Testamento tenha conhecido a dor da condição humana à luz da história da queda narrada no Gênesis, não era capaz de entender o significa do último desta história, que só se manifesta plenamente à luz da Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. É preciso conhecer a Cristo como fonte da graça para conhecer Adão como fonte do pecado. E ó Espírito-Paráclito, enviado por Cristo ressuscitado que veio estabelecer "a culpabilidade do mundo a respeito do pecado" (Jo 16,8), ao revelar Aquele que é o Redentor do mundo.

A doutrina do pecado original é, por assim dizer, "o reverso" da Boa Notícia de que Jesus é o Salvador de todos os homens, de que todos têm necessidade da salvação e de que a salvação é oferecida a todos graças a Cristo. A Igreja, que tem o senso de Cristo, sabe perfeitamente que não se pode atentar contra a revelação do pecado original sem atentar contra o mistério de Cristo.

O relato da queda (Gn 3) utiliza uma linguagem feita de imagens, mas afirma um acontecimento primordial, um fato que ocorreu no início da história do homem. A Revelação dá-nos a certeza de fé de que toda a história humana está marcada pelo pecado original cometido livremente por nossos primeiros pais.

Catecismo da Igreja Católica, §§ 386-390

domingo, 1 de abril de 2012

A resistência às tentações


Enquanto vivemos no mundo, não podemos estar sem trabalhos e tentações.

Por isso está escrito no livro de Jó: “A vida do homem sobre a terra é uma contínua tentação” (Jó 7,1).

Cada qual, pois, deve ser muito cuidadoso nas tentações, procurando, vigilante na oração, não dar lugar às ilusões do demônio, “que nunca dorme nem cessa de andarà roda das almas para devorar” (1Pd 5,8).

Ninguém é tão santo e tão perfeito que não tenha algumas vezes tentações; e não podemos viver sem elas.

Do Livro “Imitação de Cristo”

Meu Deus, por que me abandonastes?



Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes,
e ficais longe de meu grito e minha prece?

Riem de mim todos aqueles que me veem,
torcem os lábios e sacodem a cabeça:
“Ao Senhor se confiou, ele o liberte e agora o salve,
se é verdade que ele o ama!”

Cães numerosos me rodeiam furiosos,
e por um bando de malvados fui cercado.
Transpassaram minhas mãos e meus pés
e eu posso contar todos os meus ossos.

Eles repartem entre si as minhas vestes
e sorteiam entre si a minha túnica.
Vós, porém, ó meu Senhor, não fiqueis longe,
ó minha força, vinde logo em meu socorro!

Anunciarei o vosso nome a meus irmãos
e no meio da assembleia hei de louvar-vos!
Vós, que temeis ao Senhor Deus, dai-lhe louvores,
glorificai-o, descendentes de Jacó,
e respeitai-o, toda a raça de Israel!

(Salmo 21 – Liturgia Dominical)

sábado, 31 de março de 2012

Meus pecados, minha culpa...

Você já percebeu que toda culpa que você sente em relação a Deus, vem dos pecados cometidos?

Pois é, na minha caminhada fui descobrindo aos poucos que o desejo de ser melhor para Deus tinha que passar pelas chagas dos erros por mim cometidos no passado. A partir daí, o desejo de assumir meu passado, de amá-lo, de integrá-lo à minha vida atual, foi transformando culpas que guardava bem no fundo da minha alma. Fui descobrindo também que somente eu posso fazer com que aquilo que ficou congelado, escondido dentro de mim, venha a descongelar e se transformar em água, e que essa água é que lavará todas as minhas culpas diante de Deus. Pois se fui eu a cometer os erros, eu que tenho que cuidar em repará-los.

Sto.  Agostinho, em seu livro “Confissões”, diz o seguinte: “Quero recordar as minhas  torpezas passadas, as corrupções de minha alma, não porque as ame, ao contrário, para te amar, ó Deus”.  E ele diz mais: “É por amor do teu amor que retorno ao passado, percorrendo os antigos caminhos dos meus graves erros. A recordação é amarga, mas espero sentir tua doçura, doçura que não engana, feliz e segura, e quero recompor minha unidade depois dos dilaceramentos interiores que sofri quando me perdi em tantas bagatelas, ao afastar-me de tua Unidade”. Esse pensamento de Sto. Agostinho explica com clareza o desejo que enche também meu coração de ser melhor, de sentir a doçura de Deus, o carinho dEle por mim.

Ainda Sto. Agostinho diz o seguinte: “Tu és o médico, eu sou o enfermo. Tu és misericordioso, e eu sou o miserável”.

Diante disso é que não me canso de pedir auxílio ao Espírito Santo, para que Ele me oriente quanto às faltas por mim cometidas e em especial aquelas que se encontram escondidas no mais íntimo do meu ser. 

Na minha condição de miserável é que me prostro diante de Jesus Misericordioso, aquele que não condena jamais... E escuto-O falando: “Também eu não te acuso. Vai e não tornes a pecar!”


Jesus experimentou a solidão

“Estou como o pelicano do deserto, como pássaro solitário no telhado. E me deixareis sozinho: mas não estou só, porque o Pai está comigo”. (Salmo 102,7.8; João 16,32).

Ele era “como o pássaro solitário no telhado”. Nesses termos é ilustrada uma das características da personalidade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Amava os homens e andava entre eles, mas exatamente por causa de Sua perfeição, foi incompreendido e rejeitado. Ainda outros versículos demonstram Sua solidão: “E cada um foi para sua casa. Jesus, porém, foi para o Monte das Oliveiras” (João 7,53; 8,1). “O Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lucas 9,58). Seu povo não O reconheceu como o Messias prometido (João 1,10-11). Seus próprios discípulos O compreendiam muito pouco.

Nessa solidão Jesus Cristo vivia próximo de Seu Deus e Pai. “E aquele que me enviou está comigo. O Pai não me tem deixado só porque eu faço sempre o que lhe agrada” (João 8,29). Contudo, por causa de nossos pecados, os quais foram expiados, teve de ser desamparado por Deus durante as três horas de total escuridão na dolorosa cruz. Porém o Senhor Jesus permaneceu perfeito em Seu amor.

Por isso, se tivermos de atravessar a dor e a solidão, pensemos no Senhor Jesus. Ele passou por circunstâncias semelhantes e sabe o que sentirmos. Ele está vivo e nos ama. Muitos cristãos têm experimentado isso. Quando estava na prisão, o apóstolo São Paulo escreveu: “Ninguém me assistiu na minha primeira defesa, antes todos me desampararam… Mas o Senhor assistiu-me e fortaleceu-me” (2 Timóteo 4,16-17). Ao confiarmos nEle, passaremos a conhecê-Lo como o nosso Senhor e Salvador, e a Deus como o nosso Pai que nos ama e jamais nos abandona.

Comunidade Shalom – www.comshalom.org

sexta-feira, 30 de março de 2012

Cristo ofereceu-se por nós

Os sacrifícios das vítimas materiais, que a própria Santíssima Trindade, Deus único do Antigo e do Novo Testamento, tinha ordenado que nossos antepassados lhe oferecessem, prefiguravam a agradabilíssima oferenda daquele sacrifício em que o Filho unigênito de Deus feito carne iria, misericordiosamente, oferecer-se por nós.

De fato, segundo as palavras do Apóstolo, ele se entregou a si mesmo a Deus por nós, em oblação e sacrifício de suave odor (Ef 5,2). É ele o verdadeiro Deus e o verdadeiro sumo-sacerdote que por nossa causa entrou de uma vez para sempre no santuário, não com o sangue de touros e bodes, mas com o seu próprio sangue. Era isto que outrora prefigurava o sumo-sacerdote, quando, uma vez por ano, entrava no santuário com o sangue das vítimas.

É Cristo, com efeito, que, por si só, ofereceu tudo o quanto sabia ser necessário para a nossa redenção; ele é ao mesmo tempo sacerdote e sacrifício, Deus e templo. Sacerdote, por quem somos reconciliados; sacrifício, pelo qual somos reconciliados; templo, onde somos reconciliados; Deus, com quem somos reconciliados. Entretanto, só ele é o sacerdote, o sacrifício e o templo, enquanto Deus na condição de servo; mas na sua condição divina, ele é Deus com o Pai e o Espírito Santo.

Acredita, pois, firmemente e não duvides que o próprio Filho Unigênito de Deus, a Palavra que se fez carne, se ofereceu por nós como sacrifício e vítima agradável a Deus. A ele, na unidade do Pai e do Espírito Santo, eram oferecidos sacrifícios de animais pelos patriarcas, profetas e sacerdotes do Antigo Testamento. E agora, no tempo do Novo Testamento, a ele, que é um só Deus com o Pai e o Espírito Santo, a santa Igreja católica não cessa de oferecer em toda a terra, na fé e na caridade, o sacrifício do pão e do vinho.

Antigamente, aquelas vítimas animais prefiguravam o corpo de Cristo, que ele, sem pecado, ofereceria pelos nossos pecados, e seu sangue, que ele derramaria pela remissão desses mesmos pecados. Agora, este sacrifício é ação de graças e memorial do Corpo de Cristo que ele ofereceu por nós, e do sangue que o mesmo Deus derramou por nós. A esse respeito, fala São Paulo nos Atos dos Apóstolos: Cuidai de vós mesmos e de todo o rebanho, sobre o qual o Espírito Santo vos colocou como guardas, para pastorear a Igreja de Deus, que ele adquiriu com o sangue do seu próprio Filho (At 20,28). Antigamente, aqueles sacrifícios eram figura do dom que nos seria feito; agora, este sacrifício manifesta claramente o que já nos foi doado.

Naqueles sacrifícios anunciava-se de antemão que o Filho de Deus devia sofrer a morte pelos ímpios; neste sacrifício anuncia-se que ele já sofreu essa morte, conforme atesta o Apóstolo: Quando éramos ainda fracos, Cristo morreu pelos ímpios, no tempo marcado (Rm 5,6). E ainda: Quando éramos inimigos de Deus, fomos reconciliados com ele pela morte do seu Filho (Rm 5,10).

São Fulgêncio de Ruspe, bispo, séc. VI

quinta-feira, 29 de março de 2012

Perseverança até quando?

O ser humano é realmente frágil, diante das agruras da vida. Somos capazes de grandes heroísmos. Mas perante a presença do mal, das oposições contínuas de gente mal intencionada, sentimos a falta de coragem. A tentação da fuga, pura e simples, é uma alternativa aliciadora. “Todos os discípulos, deixando-o, fugiram” (Mt 26, 56). Nisso somos parecidos com os animais que, diante do perigo, por instinto de conservação, fogem rapidamente. Os homens, por educação ou por graça divina (martírio), tem a capacidade de resistência. Essa capacidade nos faz esperar que os tempos mudem, e tudo pode tomar um rumo novo. As pessoas, - homens ou mulheres, e até jovens - que tem perseverança e firmeza de conduta, tornam-se arrimo para outros  mais frágeis. Os que tem personalidade, e não se deixam desviar dos seus intentos, são líderes e vencedores. Tais pessoas se tornam heróis, pelo fato de abrirem caminho aos pusilânimes. Mas a perseverança é virtude proposta a todos, não só aos heróis. Este desafio nos é aberto em dois sentidos.

Antes de tudo, somos chamados ao heroísmo da fé. A tentação do desânimo, de abandonarmos a fé diante de outras propostas mais tentadoras, de alcançarmos a solução dos problemas pela via rápida dos milagres fáceis, nos pode fazer balançar. “Maldito seja aquele que vos anunciar um evangelho diferente daquele que eu anunciei” (Gal 1, 8). A Igreja possui a doutrina de Jesus (imagem do Pai). Nesta doutrina seremos perseverantes e seguiremos o que ensinavam os Apóstolos: “sede firmes na fé”. Entre nós católicos há muitos que se deixam seduzir com facilidade, e abandonam a fé do seu batismo, para aderirem a soluções menos complicadas. Outro chamado, feito a todos, é de sermos perseverantes na prática do bem. Trabalhar gratuitamente em benefício dos outros, pode cansar. As ingratidões, a falta de compromisso, pode nos levar ao desânimo, e a “jogar tudo para cima”. É mais fácil ter vida mansa e assistir tudo de camarote. Mas a Escritura nos alerta: “Quem for perseverante até o fim, este será salvo” (Mt 10, 22).

Dom Aloísio Roque Oppermann, Arcebispo em Uberaba/MG