segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Leitura Bíblica: Isaías 35,1-10


A proximidade do Natal produz efeitos: o recolhimento expectante acaba por extravasar e o roxo dos paramentos será trocado pelo róseo no próximo domingo. Algo assim como a fímbria das montanhas que se vai tornando rosada pela aurora que se avizinha. É o domingo “Gaudete”: um imperativo latino que se traduz por alegrai-vos! Rejubilai-vos!

Não a alegria mundana, barulhenta, a alacridade das maritacas no coqueiro. Não a algazarra artificial produzida à custa de álcool e de drogas. Mas o “gáudio”, o “gozo”, a “letícia” íntima e profunda que só o Deus da vida pode dar. Ainda que, invadidos pela alegria, nós nos descontrolemos a ponto de “saltar, gritar e dançar” (Is 35,2)...

Eis o comentário de Urs von Balthasar: “Isaías descreve a transformação do deserto em região fértil com a vinda de Deus. “Vede! Eis o vosso Deus!” O deserto é o mundo que Deus ainda não visitou, mas agora Deus está vindo. O homem é cego, surdo, coxo, mudo, quando Deus ainda não o visitou, mas agora os sentidos se abrem e os membros se soltam”.

E a visita de Deus realiza uma libertação sem limites: “Os ídolos que eram adorados em lugar do Deus vivo, também eles eram como o descrevem os Salmos e os livros sapienciais: cegos, surdos, coxos e mudos, e seus adoradores a eles se assemelhavam. Estes se haviam desviado do Deus vivo, mas agora “regressam os redimidos de Yahweh” (v. 9): eles estão libertados da morte espiritual e renascem para a verdadeira vida”.

Por que a cidade permanece tão triste? Por que o planeta dos homens ainda “geme como em dores do parto”? (Cf. Rm 8,22) Por que ainda cavam cisternas que não podem reter a água, enquanto a fonte das águas vivas permanece todo tempo à sua disposição?

Com o Natal tão próximo, voltemo-nos para a fonte da alegria. O pequeno presépio – o boi e o burro são testemunhas! – nos ensina que a alegria é simples. Tão simples como um recém-nascido nos braços de sua mãe. Mas a luz que dele se irradia afasta toda treva e anuncia que Deus se compadeceu de seu povo e vem inaugurar uma era nova de paz para todos os homens.

É esta a nossa alegria?

Orai sem cessar: “Em vós, Senhor, eu estremeço de alegria!” (Sl 9,3)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Leitura Bíblica: Baruc 5, 1-9; Filipenses 1,4-6.8-11; Lucas 3, 1-6


A estrada do Advento que nos leva ao Natal vai sendo rasgada pelos corações dos pobres, dos que constituem o resto fiel de Javé.

Baruc fala de uma grande alegria.  O profeta não encontra palavras adequadas para descrever o que está para acontecer depois da catástrofe. Jerusalém é convidada a deixar a veste luto, veste de saco, veste esfarrapada.  O povo que passou pela purificação deverá agora revestir-se de trajes de glória e colocar na cabeça um diadema de ouro.  Quanta diferença! O povo havia saído escorraçado.  O profeta pede que Jerusalém levante a cabeça e aprecie o espetáculo que faz a mão do Senhor:  “Saíram de ti, caminhando a pé,  levados pelos inimigos. Deus os devolve a ti, conduzidos com honras, como príncipes reais. Deus ordenou que se abaixassem todos os altos montes e as colinas externas e se enchessem  os vales para aplainar a terra para que  Israel  caminhe com segurança  sob a glória de Deus”.  Que vereda santa é esta?  A trilha da conversão e da bondade.

Volta, volta jubilosa dos cativos a Israel!

“Quando o Senhor reconduziu  nossos cativos, parecíamos sonhar, encheu-se de sorriso nossa boca, nossos lábios de canções” (Salmo 135).

O trecho de Paulo aos Filipenses proclamado na liturgia deste domingo é cheio de ternura e de alegria.  Desde os primeiros dias os cristãos de Filipos estiveram unidos a  Paulo na pregação do Evangelho.  Paulo tem a todos em suas orações.  Ele faz uma declaração consoladora: “Aquele que começou uma obra  boa em vós há de leva-la até à perfeição até o dia de Cristo Jesus”.  Advento, tempo de reflexão, para contemplarmos a ação de Deus em nós e na Igreja, levando-nos à perfeição.

Tempo de advento, tempo de espera do Senhor, tempo em que deixamos nosso coração se voltar para o primeiro amor, em que temos saudade do tempo em que tínhamos grande e forte desejo de santidade e andávamos empenhamos  nesse sentido.  O dia de Cristo Jesus, no quadro da liturgia, é o de sua vinda entre nós no mistério do Natal.

Paulo escolhe as mais belas expressões para falar de seu amor pelos filipenses: “Deus é testemunha de que tenho saudade de todos vós, com a ternura de Cristo Jesus”.

Lucas se compraz em descrever o dia em que todos verão a salvação de Deus.  Era o décimo quinto ano do império de Tibério  César, Pilatos era governador  na Judéia,  Herodes administrava a Galileia.. nesse tempo a palavra foi dirigida a João que morava no deserto, o esguio filho de Zacarias… Ele fora convocado a percorrer os caminhos dos homens pedindo-lhes conversão e assim  enchia os vales e abaixava as colinas para que houvesse uma estrada santa para Deus ser recebido no coração dos homens.

Frei Almir Ribeiro Guimarães

sábado, 8 de dezembro de 2012

Leitura Bíblica: Lucas 1, 26-38


«Salve, ó cheia de graça»

«Bendito seja Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que do alto dos céus, nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo [...]. Ele nos escolheu antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em caridade na Sua presença» (Ef 1,3-4) [...] A carta aos Efésios, falando da «riqueza da graça» pela qual «Deus Pai [...] nos tornou agradáveis em Seu amado Filho», acrescenta: «N'Ele temos a redenção pelo Seu sangue» (Ef 1,7). Segundo a doutrina formulada em documentos solenes da Igreja, esta «riqueza da graça» manifestou-se na Mãe de Deus, pelo facto de Ela ter sido «redimida de um modo mais sublime» (Papa Pio IX).

Em virtude da riqueza da graça do amado Filho e por motivo dos merecimentos redentores d'Aquele que haveria de tornar-Se seu Filho, Maria foi preservada da herança do pecado original. Deste modo, logo desde o primeiro instante da sua concepção, ou seja da sua existência, Ela pertence a Cristo, participa da graça salvífica e santificante e daquele amor que tem o seu início no «amado Filho», no Filho do eterno Pai que, mediante a Incarnação, se tornou o seu próprio Filho.

Sendo assim, por obra do Espírito Santo, na ordem da graça, ou seja, da participação da natureza divina, Maria recebe a vida d'Aquele ao qual Ela própria, na ordem da geração terrena, deu a vida como mãe. [...] E, uma vez que Maria recebe esta «vida nova» numa plenitude correspondente ao amor do Filho para com a Mãe e, por conseguinte, à dignidade da maternidade divina, o Anjo na Anunciação chama-lhe «cheia de graça».

Beato João Paulo II

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Ide ao encontro do outro



Pais e filhos, irmãos, amigos e colegas de trabalho ou companheiro de missão podem conviver décadas a fio, podem ter uma relação intensa, podem se divertir ou sofrer juntos… mas persistem o lado avesso, por trás das máscaras, que nunca se expõem e nem se dissipam.

Amor e amizade transitam entre esses dois "eu" que se relacionam em harmonia e conflito: afeto, generosidade, atenção, cuidados, desejo de partilha, vontade de fazer e de ser um bem, de obter do outro o que para gente é um bem, o complicado respeito ao espaço do outro, formam um campo de batalha e uma ponte.

No relacionamento afetivo, familiar ou amizade, acredito que partilhar a vida com alguém é enriquecê-la; permanecer numa relação desgastada é suicídio emocional, é desperdício de vida.

Cabe a cada um de nós decidirmos, isso, exige auto-exame, avaliação. Vale a pena apostar quando ainda existe afeto e interesse, quando o outro continua sendo desafio em lugar de um tédio, e quando, entre pais e filhos, irmãos e outros, continuam a disposição de descobrir mais e melhor quem é esse outro, o que deseja, de que precisa, o que pede e o que lhe é possível fazer.

O outro é desconhecido para nós. As pessoas podem conviver uma vida inteira e mesmo assim, não se conhecerem totalmente. Muitas vezes o máximo que conhecemos daqueles que estão próximos a nós é somente o olhar, seu jeito de ser e suas misérias. Este é o limite em que chegamos. Mas o seu interior é um mundo desconhecido, seus pensamentos, seus sentimentos… O máximo que conhecemos de algumas pessoas é somente seu exterior. Mas o verdadeiro ser é mais do que aparência, o verdadeiro ser está no interior.

É preciso romper barreiras, devemos ir ao encontro do outro e buscar conhecer verdadeiramente o seu interior. Não podemos viver indiferentes uns para com os outros. Pois somos imagem e semelhança de Deus.

Não é fácil ir ao encontro do outro, pois em nosso interior vive um leão que precisa ser domado a cada dia. Um leão que muitas vezes mata o outro, não com as mãos, mas com a indiferença e ingratidão. É preciso romper barreiras e ir além dos nossos limites, para conhecer e se dar a conhecer.

Quando não busco conhecer o outro ou não me dou a conhecer, vivo apenas na superficialidade. Enquanto você viver haverá partes deste ‘território’ para conhecer. Tantas coisas nos foram entregues, mas se elas não vêm à tona, e nem as investigamos, tudo o que temos dentro de nós fica sem uso. Quanta coisa preciosa temos dentro de nós e por egoísmo não deixamos o outro conhecer, ficamos só na superficialidade do conhecimento de si.

Leandro Couto - Com. Canção Nova

Leitura Bíblica: Isaías 29, 17-24; Mateus 9, 27-31


Todo este mês de dezembro tem perfume de esperança.  Ele vem. O Messias, na verdade, já veio. Estamos nos preparando para as grandes celebrações natalinas que revigoram nossa fé na encarnação do Verbo.  Tudo fala de esperança.

Isaías faz um elenco de eventos alvissareiros: os surdos ouvirão as palavras do livro e os olhos dos cegos verão no meio das trevas e das sombras. Os tempos messiânicos sempre foram descritos como aqueles que os cegos e os surdos seriam curados de suas limitações. E o texto continua  na leitura do Evangelho.  Jesus ali coloca um sinal do Reino. Dois cegos se aproximam dele. Querem a cura.  Antes de fazer o  gesto de cura, Jesus formula uma pergunta:  “Acreditais que eu posso fazer isso?”  Com a afirmativa, Jesus continua: “Faça-se conforme a vossa fé”. A cura é precedida de um ato de fé-confiança.  Toda essa simbologia nos remete para a cerimônia do batismo em que é dada a luz. Os que solicitam o batismo desejam uma iluminação. Luz, iluminação, círio pascal, abandono do pecado, do mundo das trevas, cura da cegueira mais profunda. Quando Jesus cura os dois cegos da leitura evangélica, toca os olhos e estes se abriram.

Toda esta simbólica nos remete, como afirmamos, ao sacramento do batismo. Muitos fomos batizados quando ainda não podíamos nos dar conta do que estava sendo em nós operado.  Em nossa caminhada de crescimento no conhecimento amoroso do mistério de Cristo, somos convidados a retomar tudo aquilo que constituiu nosso ingresso no universo da graça e da fé. Caminhantes e peregrinos nos damos conta que enxergamos mal. Não temos clareza no momento de fazer uma escolha fundamental.  Nossa inclinação para o mal perturba a limpidez de nossa visão. O pecado obscurece a razão. Sobretudo nos momentos em que a luminosidade de uma presença mais sensível do Senhor desaparece não sabemos que caminho tomar e que opção fazer.
Nos momentos de maior  lucidez buscamos pela luz.  Fazemos nossas as palavras do salmo:  “O Senhor é minha luz e salvação; de quem eu terei medo? O Senhor é a proteção da minha vida; perante quem eu tremerei?”

Isaías, na leitura hoje proclamada, continua  com palavras embebidas de esperança: “Os humildes aumentarão sua alegria  no Senhor, e os mais pobres dos homens se rejubilarão no Santo de Israel”.

Todas estas leituras quando ouvidas com as entranhas arrancam do mais profundo de cada um o desejo da iluminação e um sentimento de profunda gratidão ao Ressuscitado que vestido da luz a manhã da Páscoa nos tirou definitivamente das trevas.

Frei Almir Ribeiro Guimarães