quinta-feira, 7 de março de 2013

É preciso perder o medo de errar



Quem se reconhece e se aceita, quem é humilde, não tem medo de errar. Por quê? Porque se, depois de ponderar, prudentemente, a sua decisão, ainda cometer um erro, isso não o surpreenderá, pois sabe que é próprio da sua condição limitada. São Francisco de Sales dizia de uma forma muito expressiva: “Por que se surpreender que a miséria seja miserável?”.

Lembro-me ainda daquele dia em que subia a encosta da Perdizes, lá em São Paulo, para dar a minha primeira aula na Faculdade Paulista de Direito, da PUC (Pontifícia Universidade Católica). Ia virando e revirando as matérias, repetindo conceitos e ideias. Estava nervoso; não sabia que impressão causariam as minhas palavras naqueles alunos de rosto desconhecido. E se me fizessem alguma pergunta a qual eu não saberia responder? E se, no meio da exposição, eu esquecesse a sequência de ideias?

Entrei na sala de aula tenso, com um sorriso artificial. Comecei a falar. Estava excessivamente pendente do que dizia, nem olhava para a cara dos alunos. Falei quarenta e cinco minutos seguidos sem interrupção, sem consultar uma nota sequer.

Percebi, porém, um certo distanciamento da “turma”, um certo respeito. Um rapaz, muito comunicativo e inteligente, talvez para superar a distância criada entre o grupo e o professor, aproximou-se e me cumprimentou: “Parabéns, professor. Que memória! Não consultou, em nenhum momento, os seus apontamentos. Foi muito interessante!"

Respirei, mas, desconfiado, quis saber: "Você entendeu o que eu disse?" Admirou-se com a minha pergunta; não a esperava. Sorrindo, encabulado, confessou-me: "Entendi muito pouco, e, pelo que pude observar, a 'turma' entendeu menos ainda".

A lição estava clara: "Dei a aula para mim e não para eles. Dei a aula para demonstrar que estava capacitado, mas não para ensinar”. Faltara descontração, didática, empatia; não fizera nenhuma pausa, nenhuma pergunta. Fora tudo academicamente perfeito, como um belo cadáver. Fora um fracasso.

Lembro-me também que, quando descia aquela encosta, fiz o propósito de tentar ser mais humilde, de preparar um esquema mais simples, de perder o medo de errar, esse medo que me deixara tão tenso e tão cansado; de pensar mais nos meus alunos e menos na imagem que eles pudessem fazer de mim. E se me fizessem uma pergunta a qual não soubesse responder, o que diria? Pois bem, diria a verdade, que precisava estudar a questão com mais calma e, na próxima aula, lhes responderia. Tão simples assim.

Que tranquilidade a minha ao subir a encosta no dia seguinte! E que agradecimento dos alunos ao verem a minha atitude mais solta, mais desinibida, mais simpática! Uma lição que tive de reaprender muitas vezes ao longo da minha vida de professor e de sacerdote: a simplicidade, a transparência e a espontaneidade são o melhor remédio para a tensão e a timidez e o recurso mais eficaz para que as nossas palavras e os nossos desejos de fazer o bem tenham eco.

Não olhemos as pupilas alheias como se fossem um espelho, no qual se reflete a nossa própria imagem; não estejamos pendentes da resposta que esse espelho possa dar às perguntas que a nossa vaidade formula continuamente: "O que é que você pensa de mim? Gostou da colocação que fiz?" Tudo isso é raquítico, decadente, cheira ao mofo do próprio "eu", imobiliza e retrai, inibe e tranca a espontaneidade. Percamos o medo de errar e erraremos menos.


Dom Rafael Llano Cifuentes


quarta-feira, 6 de março de 2013

Deuteronômio 4, 1.5-9; Mateus 5, 17-19



“Agora, Israel, ouve as leis e os decretos que eu vos ensino a cumprir, para que, fazendo-o, vivais e entreis na posse da terra prometida que o Senhor Deus de vossos pais vai vos dar” (Dt 4,1).

Felizes os que escutam  a voz do Senhor! Os que auscultam os desejos do Senhor e se deixam  “trabalhar” por seus pedidos e solicitações são pessoas que estão fadadas a  viver.  Os que não ouvem o Senhor se encaminham para a morte.  Não se trata apenas de ouvir a materialidade das palavras de Moisés ou mesmo aquelas que saíram dos lábios de Jesus.  Trata-se de uma disposição fundamental da pessoa em querer saber precisamente o que o Senhor dela deseja, quais seus projetos a seu respeito, quais  as trilhas que precisará seguir para chegar à terra das promessas.

Ouve o  Senhor o pobre, o indigente, aquele que experimenta  perplexidades diante de tantos caminhos que se abrem  nas encruzilhadas de sua vida. O pobre que não é autossuficiente é querido pelo Senhor.

Quando entramos em nós mesmos, chegamos a ter um certo conhecimento a respeito de nós mesmos:  há esse corpo  com  suas possibilidades e potencialidades, mãos e pés.  Há esse interior, essa espécie de dentro mais íntimo de nós mesmos que chamamos de coração. Desse poço interior brotam nossos sonhos, desejos e projetos.  Há esse ser humano forte e frágil, cheio de interrogações e certo de que poderá vencer.

“Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração. Procurarás fazer sua vontade, haverás de santificar seu nome  e o dia do descanso. Tudo é dele e tu haverás de perguntar sempre e em todas as circunstâncias o que ele quer de ti, de tua família, de tua comunidade. Não deverá passar um dai em que não dirijas a ele o melhor de tuas entranhas:  saborearás os salmos, retirar-te-ás para ler as Palavras do Senhor com coração parecido com o de Maria, daquela que  escuta a Palavra e levarás tudo ao fundo do coração.

Amarás os teus irmãos,  a tua esposa, o teu marido, teus filhos, os de perto e os de longe. Respeitarás o que dos outros. Respeitarás a dignidade de todos eles. Porque eu me escondo no órfão e na viúva, nos mais abandonados da face da terra.

E ainda o  Deuteronômio: “Procura com grande zelo não te esqueceres de tudo o que viste com teus próprios olhos e nada deixes escapar do teu coração por todos os dias de tua vida;   ensina-o a teus filhos e netos”

Os que se dobram carinhosa e atentamente para ouvir a voz do Senhor ingressam na terra das promessas, passam pela porta aberta do coração do Redentor e entram na terra onde correm  leite e mel.

Frei Almir Ribeiro Guimarães


segunda-feira, 4 de março de 2013

A janela da vida


A nossa vida muitas vezes é comparada a uma janela.

Quando ela está aberta, o vento entra suave na nossa casa, os raios luminosos do sol dão vida a tudo que está dentro.

A gente vê a serra, os pássaros, vê tudo que Deus nos deu.

Quando ela se fecha, muitas vezes está emperrada, range e estala. Nesse momento, olhamos para dentro de nós e vemos como estamos falhos com Deus, com a nossa família e muito mais com nós mesmos.
 
 
 
Josefa Veneranda Dantas, 10 de fevereiro de 1988.






Leitura Bíblica: Lucas 4,24-30




Nem sempre Jesus encontrou receptividade em sua pátria. As autoridades religiosas temiam que ele fosse um revolucionário que haveria de estabelecer o caos. Todos pareciam contentes e satisfeitos com seus arranjos existenciais e religiosos, com suas observâncias e com a fidelidade no culto, à sua maneira, meio ou muito exterior. Jesus, no evangelho hoje proclamado, lembra verdades de ontem e de sempre. “Nenhum profeta é bem recebido em sua própria terra”. Diante de um auditório cético ou questionador, Jesus lembra que Elias fora enviado a uma viúva de Sarepta e não a tantas outras viúvas de Israel. No tempo de Eliseu, nenhum leproso de Israel fora curado, mas sim Naamã, o sírio. Esse estrangeiro, no dizer  do Livro dos Reis, ficou curado: ele “desceu e mergulhou sete vezes no Jordão conforme o homem de Deus tinha mandado e sua carne se tornou semelhante à de uma criancinha, e ele ficou purificado”. Essas invectivas de Jesus desagradaram enormemente parte de seus ouvintes.

Um autor assim comenta esta passagem: “Jesus recrimina a falta de fé dos habitantes de Nazaré, cidade onde cresceu e mostra como nossos olhos se tornam cegos mesmo tendo a salvação entre nós, como nos custa descobrir a presença de Deus que se esconde na simplicidade de pessoas que estão perto de nós, na vida cotidiana, no lugar em que estamos vivendo. Por isso, parece importante que, de quando em vez, nos perguntemos para que estamos vivendo, como estamos vivendo. Mais importante, quem sabe, saber onde estamos vivendo. Pode acontecer que venhamos a desperdiçar nossa vida num mundo irreal, num futuro que nunca chega, na saudade de tempos dourados que já se foram, ou na imaginação de um lugar que na realidade não existe. O lugar em que Deus  nos colocou precisa de alguém que ame, que se entregue, que crie, que busque a paz. O lugar em que estou é também ocasião de criar algo novo, para descobrir a presença de Deus, para acolher sua luz e seu poder. Neste lugar há pessoas concretas, por meio das quais Deus quer me dizer alguma coisa. Dificilmente, o Senhor nos enviará um anjo para dizer o que espera de mim;  normalmente se servirá das pessoas que me cercam para que eu descubra o que ele deseja de mim”.

Jesus não foi aceito em sua terra. Quando os doutores da lei e os fariseus ouviram as palavras de Jesus, “ ficaram furiosos. Levantaram-se e o expulsaram da cidade.  Levaram-no até o alto do monte sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de lançá-lo no precipício. Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou seu caminho”.

Frei Almir Ribeiro Guimarães