quinta-feira, 4 de abril de 2013

A Páscoa com Francisco



Há menos de dois meses não imaginávamos nada. Tudo corria normalmente. Já pensávamos que a Quaresma e a Páscoa seriam sem muitas novidades. Mas Deus estava preparando outra coisa para a Igreja e para o mundo.

Como num susto, tomamos conhecimento de que o Papa Bento XVI anunciara sua renúncia ao pontificado. Era dia 11 de fevereiro, pela manhã, segunda feira de carnaval, quase início do tempo quaresmal. A Igreja entrou em inesperado movimento, sabendo que, a partir do dia 28 daquele mês, a Sé de Pedro estaria vacante e que, no tempo oportuno, deveria ser convocado novo conclave. O Colégio cardinalício não estava preparado com nomes indicativos.

A notícia foi tão bombástica que a imprensa internacional modificou suas pautas daí para frente e os jornais escritos, falados, televisivos e virtuais passaram a ocupar suas primeiras páginas com o assunto. Lindas coisas foram ditas, mas muitas notícias ruins sobre problemas na Igreja ocuparam grandes espaços; algumas reais, outras ampliadas ao gosto dos editores, outras injustas, pois não comprovadas.

No período de Sede Vacante, a mídia se interessou em prognosticar candidatos os mais variados, segundo os seus critérios ou baseados em elucubrações dos chamados jornalistas vaticanistas. Sem ofendê-los, constatamos que foram, neste particular, profissionalmente ineficientes. O nome escolhido caiu sob o Cardeal Jorge Mario Bergoglio, um nome não mencionado nas pesquisas, de idade não muito jovem, num conclave rápido, o que também não se esperava.

O eleito era um homem de Deus, marcadamente orante, pobre, amigo da pobreza, simples nos costumes e no jeito de dirigir-se aos fiéis, exemplarmente íntegro, capaz de contestar o governo de seu país para defender corajosamente a doutrina de Cristo, sem se preocupar com sua própria imagem, muito menos com aplausos. Ao ouvir a palavra amiga de seu vizinho de cadeira, o brasileiro e franciscano Cardeal Hummes, que lhe segredou ao ouvido “não se esqueça dos pobres”, escolheu o nome Francisco para si. A inspiração do céu apontou para Assis, onde viveu, há mais de 800 anos, um jovem rico que se desapegou de toda riqueza para viver como pobre junto aos pobres, aos doentes, aos leprosos, aos pequenos, gente lascada, marginalizada pela sociedade. Francisco de Assis viveu tão autenticamente a sua escolha que se tornou admirado não só pelos meios católicos, quanto por outros grupos religiosos ou areligiosos em todo o mundo ocidental e oriental. Com seu jeito de amar como Jesus amou, ele causou necessária e encantadora reforma na Igreja, de um jeito tão bom que ninguém ousa classificá-lo como contestador.

Francisco dos pobres, da paz, da fraternidade universal, do perdão, da misericórdia, da harmonia com a natureza. Ele chamava de irmão a tudo o que Deus criou: árvores, animais, sol, lua, água, fogo e até a morte lhe era fraterna.

A Igreja e o mundo ganharam um Papa chamado Francisco. E isto se deu nas celebrações do mistério Pascal de 2013. Passou-se pela penitência quaresmal, pela dolorosa paixão do Senhor e chegou-se às alegrias da ressurreição. Os que se angustiavam tomaram novo alento e se revestiram de esperança, os profissionais da imprensa iniciaram novo tipo de relacionamento com a realidade religiosa que ora é santa e ora é pecadora chamada à conversão. Novos ares vieram para a humanidade (o Papa veio de uma cidade chamada Buenos Aires).

A virtude que mais tem brilhado em todo este processo é a humildade. Aquela de Cristo. Diz Dostoiévisk que a beleza salvará o mundo. Estou bem inclinado a afirmar que a beleza tem um nome e se chama humildade.

Isto, não há dúvida, é Páscoa. É passagem de situações de morte para realidade vitoriosa da vida, da vida verdadeira que só pode vir de Deus e de mais lugar nenhum!

Boa Páscoa, com Francisco!

Dom Gil Antônio Moreira

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Os nós da corda




Havia um homem que vivia sempre sereno e atraía a atenção de todos que paravam para conversar com ele. Todos, pois, estavam curiosos para saber qual era o motivo e sua constante alegria e bondade.

Um dia, o rei o procurou e falou-lhe:

- Você sempre está alegre. Será que nunca fica preocupado com alguma coisa? Não se preocupa com o seu destino? Será que nunca pensa nos pecados dos quais Deus vai lhe pedir conta? Afinal, nesta vida, todos somos pecadores!

Ao que o homem respondeu:

- Vossa Majestade tem toda a razão em dizer que a gente deve dar conta do mal que paz. Eu, por mim, penso e ajo assim: Imagino que a gente está amarrado a Deus com uma corda.

- Como assim? - perguntou o rei.

- Quando a gente peca, corta essa corda. Mas quando a gente se arrepende e pede perdão, o que Deus faz? Ele pega as duas pontas da corda e faz um nó para reatá-la. Desse jeito a corda fica mais curta e a gente fica mais perto de Deus. Os anos passam e a gente, apesar do esforço, continua falhando, mas Deus vai fazendo mais nós na corda e a gente acaba chegando cada vez mais perto dEle... Então, por que devo me preocupar ou me entristecer?

O Rei ficou muito admirado com a sabedoria do homem e entendeu a situação aqueles que, embora pecadores, conhecem e amam a Deus.

"Aumente em mim, Pai querido, com a força do seu Espírito, a disponibilidade em acolher a sua Palavra que, apesar de minhas falhas, o Senhor continua a semear em minha história, para que eu produza bons frutos e revele a todos a esperança segura que me guia ao seu Reino Eterno. Amém!"


 
(Autor desconhecido)

Leitura Bíblica: Lucas 24, 13-35



Dois discípulos desanimados se afastam de Jerusalém, cedendo à tentação de voltar à vida velha. Cléofas (que foi com certeza a “fonte” de São Lucas) e um anônimo. Domina-os a decepção causada pela morte de Jesus no Calvário. Teriam eles alimentado sonhos de grandeza em relação ao Reino que Jesus iria instaurar? Seja como for, tudo deu errado...

Mas é exatamente Jesus quem surge em seu caminho e, sem ser reconhecido, partilha com eles um pedaço de estrada, até a aldeia de Emaús. Enquanto caminham, o desconhecido faz com eles uma “liturgia da Palavra”: “começando por Moisés e os Profetas”, demonstra do modo cabal que os tristes acontecimentos daqueles dias correspondiam perfeitamente ao desígnio de Deus para o Messias. Enquanto ouvem, seu coração está em brasa. Um novo ardor toma posse deles.

Chegando à aldeia, convencem Jesus a pernoitar com eles: “Fica conosco, porque se faz tarde e o dia já declina”. No fundo, o desejo de estender no tempo aquela experiência libertadora. Acabam juntos, na mesma mesa...

Era o momento da “liturgia eucarística”: Jesus toma o pão, abençoa-o e o parte, repartindo com os dois. Seus olhos se abrem ao reconhecer aqueles gestos: os mesmos gestos da Última Ceia, as mesmas etapas de cada Eucaristia. Um Ofertório (tomar o pão), uma Consagração (abençoar o pão) e uma Comunhão (distribuir o pão).

O “Catecismo da Igreja Católica” (nº 1329) define a Eucaristia como “fração do Pão, porque este rito, próprio da refeição judaica, foi utilizado por Jesus quando abençoava e distribuía o pão como presidente da mesa, sobretudo por ocasião da Última Ceia. É por este gesto que os discípulos o reconhecerão após a ressurreição, e é com esta expressão que os primeiros cristãos designarão suas assembléias eucarísticas”.

Reconhecendo a Jesus, recuperam a fé. Já não precisam “ver” o Cristo. Por isso mesmo, ele desaparece diante de seus olhos. E foi exatamente a fé recuperada que os pôs a caminho, de volta para Jerusalém. De volta para a Igreja, onde poderiam testemunhar: “Vimos o Senhor. Ele vive!”

Como estamos vivenciando a Santa Missa? A Liturgia da Palavra reacende em nosso coração o ardor por Jesus Cristo? A Liturgia Eucarística nos repõe no caminho do anúncio da Boa Nova?

Orai sem cessar: “Senhor, dai-nos sempre deste Pão!”

 Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

A fonte da juventude



No dia 8 de dezembro de 1965, no final do Concílio Vaticano II, entre as mensagens dirigidas a vários segmentos da sociedade, o Papa Paulo VI pensou também na juventude: «É a vocês, rapazes e moças de todo o mundo, que o Concílio quer dirigir a sua última mensagem. São vocês que tomarão o facho das mãos de seus antepassados e viverão no mundo, nas transformações mais gigantescas de sua história. São vocês que, recolhendo o melhor do exemplo e do ensinamento de seus pais e mestres, constituirão a sociedade de amanhã: vocês se salvarão ou perecerão com ela. Em nome de Deus e de seu Filho Jesus os exorto a alargar seus corações a todo o mundo, a escutar o apelo de seus irmãos e a pôr corajosamente as suas energias juvenis ao serviço deles. Lutem contra o egoísmo. Recusem-se a fomentar os instintos da violência e do ódio, que geram as guerras e o seu cortejo de misérias. Sejam generosos, puros, respeitadores, sinceros. Construam com entusiasmo um mundo melhor que o dos seus antepassados!».

Não sei se, felizmente ou infelizmente, entre os jovens daquela época estava também eu. A minha dúvida nasce do exame de consciência que as palavras de Paulo VI me obrigam a fazer. Ante a situação que descortino em minha frente, posso afirmar que trabalhei para “construir um mundo melhor que o de meus antepassados”? Três anos depois, em 1968, inúmeros países assistiram a um levante geral da juventude. No afã de exigir mudanças – que eram e continuam sendo necessárias – muitos jovens questionaram princípios e valores e imprimiram um novo rumo à humanidade. Parece-me difícil avaliar imparcial e corretamente esse “novo rumo”, a meu ver uma verdadeira mudança de época cultural na história. Mas, já que perguntar não ofende, pode-se dizer, em sã consciência, que hoje há mais respeito, mais tolerância, mais justiça, mais paz, mais fraternidade do que em 1968? Para mim, uma coisa é certa: sem conversão pessoal, o “mundo que queremos” não passa de palavras bonitas...

Muito oportuna, portanto, a decisão da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil em dar à Campanha da Fraternidade de 2013 como tema a juventude e como lema a generosidade de Isaías: “Eis-me aqui! Envia-me!” (Is 6,8). Por ser amor, Deus é sempre jovem. Por isso, quanto mais perto dele alguém se mantiver pelo amor, mais bela, profunda e duradoura será a sua juventude. Mais do que uma fase da vida, ela é um estado de espírito. Há jovens que são velhos. Deixando-se arrastar pelo materialismo, tentam preencher seu vazio espiritual e psíquico com miragens que lhes tiram a esperança, as forças e o rumo. «Onde estão os nossos jovens?», foi a pergunta que muitos se fizeram no dia 27 de janeiro de 2013, após o incêndio numa boate de Santa Maria, que vitimou quase 250 deles.

Para os jovens que acreditam que Deus tem sobre eles e sobre a humanidade um projeto de amor, o caminho a seguir foi magistralmente traçado há dois mil anos pelo apóstolo João, o discípulo que mais entendeu o coração de Jesus: «Eu lhes escrevo, jovens, porque vocês são fortes, porque a Palavra de Deus permanece em vocês e vocês venceram o Maligno. Não amem o mundo nem o que há no mundo. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Pois tudo o que o mundo oferece – a satisfação dos instintos, a ânsia de brilhar e o apego à riqueza – não vem do Pai, mas do mundo. O mundo passa com seus desejos insaciáveis. Mas quem faz a vontade de Deus permanece para sempre» (1Jo 2,14-17).

É desde a mais remota antiguidade que se procura a fonte da juventude, a fonte da alegria, a fonte da beleza, a fonte do amor, a fonte da vida. Graças a Deus, ela existe: foi aberta no domingo da Páscoa. «Fazendo-se pecado» (2Cor 5,21), Jesus tirou a força do pecado. «Fazendo-se maldição» (Gl 3,13), transformou a maldição em bênção. Se só se salva o que se assume, é preciso morrer para viver. Quanto mais morte, mais vida: «Quem pretende salvar a vida, vai perdê-la. Mas quem a perde por causa de mim, vai encontrá-la» (Mt 16,25). Se «uma só coisa é necessária», o que importa é «escolher sempre a melhor parte» (Lc 10,42). E ela pertence a quem repete com a vida: “Eis-me aqui! Envia-me!” (Is 6,8). Somente assim poder-se-á «construir um mundo melhor que o dos antepassados!». Inútil tentar outro caminho!

Dom Redovino Rizzardo, cs