sábado, 6 de abril de 2013

Acreditar na Páscoa!


Estamos numa mudança de época. Vivemos muitas crises. A maior delas é a crise de fé. Acredita-se ainda? Acreditar em que e em quem? Há algo que ainda dá sentido à vida? Para onde caminha a humanidade? A plenitude deu definitivamente lugar ao niilismo?

Em resposta à crise de fé, os fiéis da Igreja Católica foram e são desafiados a viver um “Ano da Fé”, que iniciou em outubro do ano passado e termina em novembro deste ano. Foi proclamado, ainda, pelo Papa emérito, Bento XVI. Ele mesmo colocou uma finalidade contundente do “Ano da Fé”: “repensarmos e vivenciarmos a fé”. Em outras palavras, deseja o que o grande apóstolo das nações nos primórdios do cristianismo, o Paulo de Tarso, já propusera aos que tinham abraçado a fé em Jesus Cristo: “dar sempre razões à fé”. Também hoje, na mudança de época em que vivemos, é urgente a tarefa nossa de “darmos novas razões à fé”. Senão sucumbimos por falta de convicções; senão sucumbimos no vazio da existência sem perspectivas. Precisamos urgentemente recuperar a alegria de crer. Precisamos urgentemente testemunhas de uma fé viva e forte.

Qual é o cerne da fé cristã? É preciso acreditar em que e em quem mesmo? Pois, a resposta é esta: é preciso acreditar na PÁSCOA! Não existe ressurreição sem Páscoa! Não existe felicidade sem Páscoa! Não existe graça sem Páscoa! Não existe vida sem Páscoa! Não existe luz sem Páscoa! Hoje, na mudança de época em que vivemos, numa sociedade cada vez mais do “fácil-relativo-supérfluo-efêmero-transitório”, quer-se viver a ressurreição, a felicidade, a graça, a vida, a luz, mas sem uma Páscoa.

Páscoa é passagem. Passagem da cruz para a ressurreição, passagem da facilidade para a felicidade, passagem do pecado para a graça, passagem da morte para a vida, passagem das trevas para a luz. Nessa passagem é preciso abraçar a cruz. Procura-se sempre mais fugir da cruz. A fuga da cruz é uma ilusão e não nos leva à ressurreição, à felicidade, à graça e à vida.

Vamos acreditar na Páscoa: a humanidade depende desta fé. A humanidade precisa da Páscoa-passagem do sepulcro escuro do niilismo para a ressurreição luminosa da plenitude. Ainda é atualíssima a palavra do grande Agostinho de Hipona: “nosso coração anda inquieto enquanto não repousa no Absoluto-Deus”.

Dom Jacinto Bergmann, Arcebispo de Pelotas

quinta-feira, 4 de abril de 2013

A Páscoa com Francisco



Há menos de dois meses não imaginávamos nada. Tudo corria normalmente. Já pensávamos que a Quaresma e a Páscoa seriam sem muitas novidades. Mas Deus estava preparando outra coisa para a Igreja e para o mundo.

Como num susto, tomamos conhecimento de que o Papa Bento XVI anunciara sua renúncia ao pontificado. Era dia 11 de fevereiro, pela manhã, segunda feira de carnaval, quase início do tempo quaresmal. A Igreja entrou em inesperado movimento, sabendo que, a partir do dia 28 daquele mês, a Sé de Pedro estaria vacante e que, no tempo oportuno, deveria ser convocado novo conclave. O Colégio cardinalício não estava preparado com nomes indicativos.

A notícia foi tão bombástica que a imprensa internacional modificou suas pautas daí para frente e os jornais escritos, falados, televisivos e virtuais passaram a ocupar suas primeiras páginas com o assunto. Lindas coisas foram ditas, mas muitas notícias ruins sobre problemas na Igreja ocuparam grandes espaços; algumas reais, outras ampliadas ao gosto dos editores, outras injustas, pois não comprovadas.

No período de Sede Vacante, a mídia se interessou em prognosticar candidatos os mais variados, segundo os seus critérios ou baseados em elucubrações dos chamados jornalistas vaticanistas. Sem ofendê-los, constatamos que foram, neste particular, profissionalmente ineficientes. O nome escolhido caiu sob o Cardeal Jorge Mario Bergoglio, um nome não mencionado nas pesquisas, de idade não muito jovem, num conclave rápido, o que também não se esperava.

O eleito era um homem de Deus, marcadamente orante, pobre, amigo da pobreza, simples nos costumes e no jeito de dirigir-se aos fiéis, exemplarmente íntegro, capaz de contestar o governo de seu país para defender corajosamente a doutrina de Cristo, sem se preocupar com sua própria imagem, muito menos com aplausos. Ao ouvir a palavra amiga de seu vizinho de cadeira, o brasileiro e franciscano Cardeal Hummes, que lhe segredou ao ouvido “não se esqueça dos pobres”, escolheu o nome Francisco para si. A inspiração do céu apontou para Assis, onde viveu, há mais de 800 anos, um jovem rico que se desapegou de toda riqueza para viver como pobre junto aos pobres, aos doentes, aos leprosos, aos pequenos, gente lascada, marginalizada pela sociedade. Francisco de Assis viveu tão autenticamente a sua escolha que se tornou admirado não só pelos meios católicos, quanto por outros grupos religiosos ou areligiosos em todo o mundo ocidental e oriental. Com seu jeito de amar como Jesus amou, ele causou necessária e encantadora reforma na Igreja, de um jeito tão bom que ninguém ousa classificá-lo como contestador.

Francisco dos pobres, da paz, da fraternidade universal, do perdão, da misericórdia, da harmonia com a natureza. Ele chamava de irmão a tudo o que Deus criou: árvores, animais, sol, lua, água, fogo e até a morte lhe era fraterna.

A Igreja e o mundo ganharam um Papa chamado Francisco. E isto se deu nas celebrações do mistério Pascal de 2013. Passou-se pela penitência quaresmal, pela dolorosa paixão do Senhor e chegou-se às alegrias da ressurreição. Os que se angustiavam tomaram novo alento e se revestiram de esperança, os profissionais da imprensa iniciaram novo tipo de relacionamento com a realidade religiosa que ora é santa e ora é pecadora chamada à conversão. Novos ares vieram para a humanidade (o Papa veio de uma cidade chamada Buenos Aires).

A virtude que mais tem brilhado em todo este processo é a humildade. Aquela de Cristo. Diz Dostoiévisk que a beleza salvará o mundo. Estou bem inclinado a afirmar que a beleza tem um nome e se chama humildade.

Isto, não há dúvida, é Páscoa. É passagem de situações de morte para realidade vitoriosa da vida, da vida verdadeira que só pode vir de Deus e de mais lugar nenhum!

Boa Páscoa, com Francisco!

Dom Gil Antônio Moreira

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Os nós da corda




Havia um homem que vivia sempre sereno e atraía a atenção de todos que paravam para conversar com ele. Todos, pois, estavam curiosos para saber qual era o motivo e sua constante alegria e bondade.

Um dia, o rei o procurou e falou-lhe:

- Você sempre está alegre. Será que nunca fica preocupado com alguma coisa? Não se preocupa com o seu destino? Será que nunca pensa nos pecados dos quais Deus vai lhe pedir conta? Afinal, nesta vida, todos somos pecadores!

Ao que o homem respondeu:

- Vossa Majestade tem toda a razão em dizer que a gente deve dar conta do mal que paz. Eu, por mim, penso e ajo assim: Imagino que a gente está amarrado a Deus com uma corda.

- Como assim? - perguntou o rei.

- Quando a gente peca, corta essa corda. Mas quando a gente se arrepende e pede perdão, o que Deus faz? Ele pega as duas pontas da corda e faz um nó para reatá-la. Desse jeito a corda fica mais curta e a gente fica mais perto de Deus. Os anos passam e a gente, apesar do esforço, continua falhando, mas Deus vai fazendo mais nós na corda e a gente acaba chegando cada vez mais perto dEle... Então, por que devo me preocupar ou me entristecer?

O Rei ficou muito admirado com a sabedoria do homem e entendeu a situação aqueles que, embora pecadores, conhecem e amam a Deus.

"Aumente em mim, Pai querido, com a força do seu Espírito, a disponibilidade em acolher a sua Palavra que, apesar de minhas falhas, o Senhor continua a semear em minha história, para que eu produza bons frutos e revele a todos a esperança segura que me guia ao seu Reino Eterno. Amém!"


 
(Autor desconhecido)

Leitura Bíblica: Lucas 24, 13-35



Dois discípulos desanimados se afastam de Jerusalém, cedendo à tentação de voltar à vida velha. Cléofas (que foi com certeza a “fonte” de São Lucas) e um anônimo. Domina-os a decepção causada pela morte de Jesus no Calvário. Teriam eles alimentado sonhos de grandeza em relação ao Reino que Jesus iria instaurar? Seja como for, tudo deu errado...

Mas é exatamente Jesus quem surge em seu caminho e, sem ser reconhecido, partilha com eles um pedaço de estrada, até a aldeia de Emaús. Enquanto caminham, o desconhecido faz com eles uma “liturgia da Palavra”: “começando por Moisés e os Profetas”, demonstra do modo cabal que os tristes acontecimentos daqueles dias correspondiam perfeitamente ao desígnio de Deus para o Messias. Enquanto ouvem, seu coração está em brasa. Um novo ardor toma posse deles.

Chegando à aldeia, convencem Jesus a pernoitar com eles: “Fica conosco, porque se faz tarde e o dia já declina”. No fundo, o desejo de estender no tempo aquela experiência libertadora. Acabam juntos, na mesma mesa...

Era o momento da “liturgia eucarística”: Jesus toma o pão, abençoa-o e o parte, repartindo com os dois. Seus olhos se abrem ao reconhecer aqueles gestos: os mesmos gestos da Última Ceia, as mesmas etapas de cada Eucaristia. Um Ofertório (tomar o pão), uma Consagração (abençoar o pão) e uma Comunhão (distribuir o pão).

O “Catecismo da Igreja Católica” (nº 1329) define a Eucaristia como “fração do Pão, porque este rito, próprio da refeição judaica, foi utilizado por Jesus quando abençoava e distribuía o pão como presidente da mesa, sobretudo por ocasião da Última Ceia. É por este gesto que os discípulos o reconhecerão após a ressurreição, e é com esta expressão que os primeiros cristãos designarão suas assembléias eucarísticas”.

Reconhecendo a Jesus, recuperam a fé. Já não precisam “ver” o Cristo. Por isso mesmo, ele desaparece diante de seus olhos. E foi exatamente a fé recuperada que os pôs a caminho, de volta para Jerusalém. De volta para a Igreja, onde poderiam testemunhar: “Vimos o Senhor. Ele vive!”

Como estamos vivenciando a Santa Missa? A Liturgia da Palavra reacende em nosso coração o ardor por Jesus Cristo? A Liturgia Eucarística nos repõe no caminho do anúncio da Boa Nova?

Orai sem cessar: “Senhor, dai-nos sempre deste Pão!”

 Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.