segunda-feira, 8 de abril de 2013

Solenidade da Anunciação do Senhor



Quando refletimos  sobre a anunciação do anjo a Maria lembramo-nos das belas e delicadas linhas de São Bernardo de Claraval: “Apressa-te, ó  Virgem, em dar a  tua resposta;  responde sem demora ao Anjo, ou  melhor,  responde ao  Senhor por meio do Anjo.  Pronuncia  uma palavra e recebe  a Palavra;  profere a tua palavra e recebe a Palavra de Deus;  dize uma palavra passageira e abraça a   Palavra eterna”.

Ela, Maria da cidade de Nazaré,  vivia a vida de todas as mulheres de sua terra.  Cuidava das coisas da casa,  buscava água no poço,  participava das festas religiosas  em  Jerusalém,  frequentava a sinagoga. A julgar pelo  Cântico do Magnificat,  composição inspirada na espiritualidade dos  “pobres de Javé”,  Maria devia ter familiaridade com o espírito dos  salmos e  marcada também pela figura de Abraão:  crer irrestritamente. Frequentava a sinagoga e vivia no meio do seu povo.  Como todos os verdadeiros buscadores de Deus Maria, sempre se perguntava a respeito dos desígnios de Deus a seu respeito.

Quando  chegou a plenitude dos tempos, o Altíssimo resolveu concretizar seu eterno plano de amor: juntar sua eternidade  à fugacidade do tempo dos viventes, realizar  uma comunhão de amor entre seu  Mistério e a humanidade que saíra de suas  mãos. Seu projeto era ganhar carne para poder beber a água  de nossas fontes, sentar-se às nossas mesas e experimentar ser homem, vivendo nossa vida e nossa morte. Este o Mistério central da fé cristã:  Deus se tornou carne.

O enviado do  Altíssimo se aproxima de Maria de Nazaré  e dá-se o grande anúncio. O céu se aproxima da terra. O mensageiro  divino fala:   “Maria, tu és cheia da graça do Senhor. O Senhor é contigo.  Tu conceberás um filho na tua virgindade, na inteireza de tua vida,  na plenitude da presença de Deus em ti com sua graça.  Tu estás prometida em casamento a José.  A sombra do Altíssimo pousará sobre ti e esse que vai nascer de ti será chamado de santo,  Filho de Deus. O Espírito fará gerar vida. Todo o  mundo aguarda teu  Esperamos quem não hesites.”

E Maria:  “Está bem.  Acolho com carinho e obediência esse apelo que veio até esse ser pequeno que sou eu.  Faça-se em mim segundo a tua Palavra.  Eu sou a serva do  Senhor.  Está muito bem”.   Assim, com sim de Maria de Nazaré Deus começava a concretizar  o sonho eterno de ser um de nós e nos arrancar das sombras da morte levando-nos para a luz que não conhece ocaso.

Belamente cantamos no Prefácio da Missa:  “A Virgem Maria recebeu com fé o anúncio do anjo; e à sombra  do Espírito  Santo,  acolheu com amor no seio puríssimo, aquele que, para salvar  os seres humanos, quis  nascer entre eles.  Assim, cumpriam-se  as promessas feitas a Israel, e de inefável,  realizava-se a esperança das nações”.

Maria  deu  carne, braços, mãos, pés, respiração, vida ao Verbo para viver e morrer por  amor dos  homens.

Frei Almir Ribeiro Guimarães

domingo, 7 de abril de 2013

Leitura Bíblica: João 20,19-31



Mais uma vez  chega ao fundo de nossos corações o relato da  profissão de fé de Tomé. Quantas vezes,  de modo particular  após a comunhão da missa,  na trajetória dos caminhos de nossa tentativa de fidelidade ao  Senhor temos certeza da força e da presença do  Senhor  e  dizemos com  Tomé;  “Meu Senhor e meu Deus”.

Vejamos passo a passo o relato  do evangelista  João. Era o final do primeiro dia da semana.  Os apóstolos vivem sentimentos  de perplexidade e de medo.  Afinal, de contas o fim da vida daquele Mestre tão luminoso foi sem brilho.  Sensação de fracasso e de medo. Os mais íntimos do Senhor estão com as portas fechadas.

Há qualquer coisa de inusitado.  O Ressuscitado passa pelas portas fechadas.  Não está mais sujeito  às leis da física.  É ele, é o mesmo, mas é diferente.  Saiu do universo das coisas comuns.  Colocando-se no meio dos seus  deseja-lhes a paz.  Traz a paz da vitória sobre a morte.  Paz que precisa vencer o medo.  Paz  que  é perdão dos pecados.  Paz que é dom  do Espírito.

O Ressuscitado sopra sobre  os apóstolos  confiando-lhes o ministério da reconciliação, do perdão.  Os corações contritos e arrependidos podem se purificar nas águas da salvação.  Esse vem da morte e passa pelas portas fechadas, esse que já  não é da mesma ordem coisas.  Felizes e cheios de profunda paz aqueles que conseguem reorientar suas vidas e suas  histórias para as coisas do Senhor depois de viverem o absurdo de  uma vida vazia e oca,  quando recebem o perdão de suas loucuras e vivem na paz, plenitude de todos os bens.

Tomé não estava presente   quando Jesus passara pelas portas fechadas. Seus  colegas dizem:  Vimos o  Senhor!   Sim,  viram o Senhor  igual e diferente, aquele que vive, mas vida na atmosfera de um universo novo.  Jesus se manifesta novamente e se dirige a Tomé.  Ele se diz o mesmo… pede que  Tomé  toque suas mãos,  coloque a mão no seu lado.  Há uma manifestação especial do  Senhor  ao apóstolos com dificuldades para crer.   Nesse momento é que brota de seu coração aquela expressão de confiança e de humildade que aprendemos a fazer nossa:  “Meu Senhor e meu  Deus!”  Felizes os que, pelo testemunho  dos apóstolos e  das primeiras comunidade de fé , creem sem ver.

A primeira leitura  tirada dos Atos dá a entender que  os apóstolos continuam a obra de Jesus:  ensino e cura dos doentes. Repetem-se as cenas: camas, macas,  gente doente,  gente que quer tocar ao menos a beirada da roupa dos apóstolos, pessoas que querem que a sombra de Pedro se projete sobre eles.

O  tempo pascal nos convida a aprofundar nossa fé na presença do Ressuscitado em nosso meio.

Frei Almir Ribeiro Guimarães

Pessoas e flores



Estive pensando na relação que existe entre pessoas e flores. Sei que podemos passar a vida inteira sem pensar sobre isso e vivermos bem, mas acredito que podemos observar certas coisas e vivermos ainda melhor.

Sempre gostei de flores. Desde criança interesso-me por elas. Já aprendi que cada planta tem seus mistérios e exige cuidados específicos, adaptam-se ou não a determinadas situações do clima e do solo. Por isso, o tratamento de um jardim, por exemplo, nunca pode acontecer “em série”, e o melhor resultado na variedade de cores, aromas e beleza será daquele ao qual mais se dedicou o cultivo. Com pessoas seria diferente?

Esses dias, vivi uma situação que tem me feito pensar ainda mais na relação que encontro entre pessoas e flores:

Chegando a um supermercado, fui atraída pela diversidade de violetas, as quais, naquele dia, estavam em promoção, expostas já na entrada do estabelecimento. Ao aproximar-me das plantas, uma delas chamou-me a atenção pela cor e pela diferença entre as outras. Driblei alguns obstáculos e elegi, em segundos, aquela violeta como minha preferida entre dezenas.

Acontece que, continuando a trajetória - ainda dentro do supermercado -, fui percebendo que a violeta que eu havia escolhido não era perfeita. Aliás, tinha graves defeitos: flores murchas, folhas quebradas e, na verdade, sua cor já não me parecia tão atraente, ou seja, perdi o encanto da primeira vista. Então, decidi que a trocaria por outra, afinal, opções era o que não faltava.

Voltei à área de jardinagem e, de longe, fui procurando identificar outra violeta que eu elegeria para substituir a que eu havia escolhido minutos antes. Porém, algo interessante aconteceu naquela hora.

Ao abaixar-me para escolher outra flor, ouvi como se fosse o próprio Deus falando ao meu coração: “Como você se deixa levar pelas aparências! Primeiro, escolheu a violeta e lutou por ela, mas bastou perceber algumas imperfeições para decidir trocá-la por outra! Certamente, você espera receber da planta sua beleza e vivacidade. Mas e você? Não tem nada a lhe oferecer?”

Já pensou se, em vez de trocar a planta por outra, resolver levá-la para casa e dedicar-se ao seu cultivo? Se contemplar sua superação e acompanhar, de perto, seu desenvolvimento, não a fará mais valiosa?

Lembrei-me da frase tão conhecida de Saint-Exupéry: “O tempo que eu gastei com minha rosa é o que fez minha rosa ser mais importante”. Sem dar ouvidos à razão, fiz o que meu coração mandava: trouxe a violeta comigo e tenho cuidado dela. Aliás, enquanto escrevo, desfruto de sua agradável companhia.

Mas a história não para por aqui. Na verdade, é agora que ela começa, pois, com este fato, Deus tem me falado que, o que aconteceu com a violeta também acontece com as pessoas.

Muitas vezes, escolhemos alguém para fazer parte da nossa vida levados pela aparência. Envolvidos pela emoção do encontro, fazemos logo uma ideia a respeito da pessoa e a idealizamos “perfeita”. Por mais que nos digam, não conseguimos enxergar seus limites. Só que isso, geralmente, é passageiro, e quando o encantamento se vai, fica a realidade. Aí começamos a lidar com as limitações da pessoa e, se não tivermos tido tempo para passarmos do encantamento ao amor, nossa primeira atitude será de recusa.

Falta-nos maestria, coragem e disposição para ajudar o outro na arte de ser melhor. É aí que tomamos a decisão que tomei com relação à violeta: “Esta tem defeitos, vou trocar por outra”.

Infelizmente, é com frequência que vemos isso acontecer. Pessoas são escolhidas e descartadas em seus relacionamentos como se fossem flores em promoção no supermercado. Daí, eu me pergunto: “Será que essa é a vontade de Deus para a vida de seus filhos? Ou será que Ele está nos pedindo para cuidarmos da 'violeta' que Ele nos deu sem pensar em trocas?”.

Defeitos todos nós temos; as violetas também. Percebi, depois que olhei com mais calma, que, naquele arsenal de flores, não havia nem um vasinho sequer que fosse perfeito. Se eu não me decidisse a trazer aquela violeta com seus limites para minha casa, correria o risco de passar a vida inteira sem flores.

Com gente também é assim. Se ficarmos esperando pessoas “prontas e perfeitas” para amarmos, corremos o risco de passarmos a vida inteira sozinhos ou “trocando de vasos”, sem ter a alegria de ver nascer novos brotos na planta que decidimos gastar tempo com o cultivo.

Quem gosta de jardinagem sabe o prazer que se sente ao ver os brotos romperem o silêncio da terra e vir ao mundo trazendo cores e vida ao ambiente. Agora, imagine quando o assunto está relacionado às pessoas!

É muito gratificante ver alguém ser transformado, dia após dia, só porque você resolveu olhar diferente para ele. Se a planta precisa de cultivo para florescer, a pessoa ainda mais. Não queira trocar “sua violeta” por outra, mesmo que as ofertas sejam tentadoras. Cuide da que você tem em mãos. Ela pode não ser perfeita, mas se você gastar tempo com o cultivo, ela vai florir e alegrar sua vida. A minha já está bem mais bonita do que quando a encontrei!

A violeta, que hoje está em suas mãos, pode ser seu esposo, esposa, filho, colega de trabalho, amigo, pai ou mãe... Enfim, a decisão deve ser a mesma: empenhar-se no cultivo para superar as fraquezas. Se tiver a coragem de viver esta aventura, verá que vale muito mais a pena contemplar os brotos que virão depois dos seus cuidados, do que trazer flores artesanais para casa.

Cada sinal de vida que surgir será motivo de celebração e vitória. Faça a experiência e me conte, depois, como foi o resultado. Deus o ajudará no cultivo. Ele é “Mestre” em transformar desertos em jardins. Estou torcendo por você!

Dijanira Silva, Canção Nova

sábado, 6 de abril de 2013

A porta da Fé



A PORTA DA FÉ, que introduz na vida de comunhão com Deus e permite a entrada na sua Igreja, está sempre aberta para nós. É possível cruzar esse limiar, quando a Palavra de Deus é anunciada e o coração se deixa plasmar pela graça que transforma. Atravessar essa ponte implica embrenhar-se num caminho que dura a vida inteira. Esse caminho tem início no Batismo, pelo qual podemos dirigir-nos a Deus com o nome de Pai, e está concluído com a passagem através da morte para a vida eterna, fruto da ressurreição do Senhor Jesus, que, com o dom do Espírito Santo, quis fazer participantes da sua própria glória quantos creem nele. Professar a fé na Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo – equivale a crer num só Deus que é Amor: o Pai, que na plenitude dos tempos enviou seu Filho para a nossa salvação; Jesus Cristo, que redimiu o mundo no mistério da sua morte e ressurreição; o Espírito Santo, que guia a Igreja através dos séculos enquanto aguarda o regresso glorioso do Senhor.

Bento XVI, Porta Fidei

Acreditar na Páscoa!


Estamos numa mudança de época. Vivemos muitas crises. A maior delas é a crise de fé. Acredita-se ainda? Acreditar em que e em quem? Há algo que ainda dá sentido à vida? Para onde caminha a humanidade? A plenitude deu definitivamente lugar ao niilismo?

Em resposta à crise de fé, os fiéis da Igreja Católica foram e são desafiados a viver um “Ano da Fé”, que iniciou em outubro do ano passado e termina em novembro deste ano. Foi proclamado, ainda, pelo Papa emérito, Bento XVI. Ele mesmo colocou uma finalidade contundente do “Ano da Fé”: “repensarmos e vivenciarmos a fé”. Em outras palavras, deseja o que o grande apóstolo das nações nos primórdios do cristianismo, o Paulo de Tarso, já propusera aos que tinham abraçado a fé em Jesus Cristo: “dar sempre razões à fé”. Também hoje, na mudança de época em que vivemos, é urgente a tarefa nossa de “darmos novas razões à fé”. Senão sucumbimos por falta de convicções; senão sucumbimos no vazio da existência sem perspectivas. Precisamos urgentemente recuperar a alegria de crer. Precisamos urgentemente testemunhas de uma fé viva e forte.

Qual é o cerne da fé cristã? É preciso acreditar em que e em quem mesmo? Pois, a resposta é esta: é preciso acreditar na PÁSCOA! Não existe ressurreição sem Páscoa! Não existe felicidade sem Páscoa! Não existe graça sem Páscoa! Não existe vida sem Páscoa! Não existe luz sem Páscoa! Hoje, na mudança de época em que vivemos, numa sociedade cada vez mais do “fácil-relativo-supérfluo-efêmero-transitório”, quer-se viver a ressurreição, a felicidade, a graça, a vida, a luz, mas sem uma Páscoa.

Páscoa é passagem. Passagem da cruz para a ressurreição, passagem da facilidade para a felicidade, passagem do pecado para a graça, passagem da morte para a vida, passagem das trevas para a luz. Nessa passagem é preciso abraçar a cruz. Procura-se sempre mais fugir da cruz. A fuga da cruz é uma ilusão e não nos leva à ressurreição, à felicidade, à graça e à vida.

Vamos acreditar na Páscoa: a humanidade depende desta fé. A humanidade precisa da Páscoa-passagem do sepulcro escuro do niilismo para a ressurreição luminosa da plenitude. Ainda é atualíssima a palavra do grande Agostinho de Hipona: “nosso coração anda inquieto enquanto não repousa no Absoluto-Deus”.

Dom Jacinto Bergmann, Arcebispo de Pelotas