domingo, 26 de maio de 2013

É na família que tudo começa (ou termina?)



Um adolescente de 17 anos entra na casa do vizinho e mata um menino de seis anos. Dois dias depois, é preso juntamente com a namorada, de 19 anos, grávida de três meses, quando tentava fugir para outro Estado. Na entrevista que, em seguida, deu à imprensa, revelou que, quando chegou à casa da vítima, foi recebido com alegria pela criança: «Ela me ofereceu pão e maçã, dizendo que, se eu quisesse mais, podia entrar e pegar».

Uma mãe de 42 anos e seu filho de 20 contratam os serviços de um “matador de aluguel” para assassinar o marido e padrasto de 63 anos e ficar com os seus bens. Armando uma emboscada ao idoso, o chamam para conversar em local insuspeito e, quando aparece, é friamente assassinado pelo criminoso, que mal completou 17 anos.

Um adolescente de 15 anos mantém a “esposa” de 25 sob a ameaça de um facão durante varias horas. Chamada ao local, a polícia detém a ambos: o rapaz por violência e a moça por desacato à autoridade.

Os três fatos aconteceram em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, mas poderiam ter ocorrido em qualquer outra cidade. O que impressiona – se é que ainda impressiona – é que, em todos eles, os protagonistas são adolescentes e os delitos se sucederam no espaço de três dias, de 4 a 6 de abril de 2013.

Mas, o que esperar de uma sociedade que, depois de escancarar as portas ao materialismo, ao permissivismo e ao relativismo, finge se escandalizar com suas consequências e abarrota as prisões com jovens, cujo pecado foi seguir seus ensinamentos? Se se quer extirpar ou diminuir a violência que grassa entre eles, mais do que diminuir-lhes a maioridade penal, do que se precisa é investir na formação de sua consciência ética através da família. Foi o que lembrou a CNBB, em “nota” publicada, no dia 16 de maio: «O debate sobre a redução da maioridade penal, colocado em evidência mais uma vez pela comoção provocada por crimes bárbaros cometidos por adolescentes, conclama-nos a uma profunda reflexão sobre nossa responsabilidade no combate à violência, na promoção da cultura da vida e da paz e no cuidado e proteção das novas gerações de nosso país. A delinquência juvenil é, antes de tudo, um aviso de que o Estado, a Sociedade e a Família não têm cumprido adequadamente com seu dever. Criminalizar o adolescente com penalidades no âmbito carcerário seria maquiar a verdadeira causa do problema, desviando a atenção com respostas simplórias, inconsequentes e desastrosas para a sociedade».
É na família que se inicia a renovação, ou a perdição, da sociedade. Nesse sentido, só deveria casar – e, mais ainda, gerar filhos – quem está preparado e maduro para assumir os compromissos que o ato comporta. É o que tenta transmitir uma estória que, há poucos dias, recebi via internet. Em sua simplicidade, ela tem muito a ensinar.

Certo dia, a professora pediu aos alunos que fizessem uma redação, expressando um pedido que gostariam fazer a Deus. Em casa, ao corrigir os trabalhos escolares, ela se deparou com um escrito que a deixou abalada. Entrando na sala e vendo-a soluçar, o marido perguntou: «O que aconteceu?». Como resposta, ela lhe repassou a oração que uma aluna redigira: «Senhor, transforma-me numa televisão! Quero ocupar o espaço dela. Ter um lugar especial para mim e reunir a família ao redor. Ser levada a sério quando falo. Quero ter a mesma atenção que ela recebe quando não funciona. Ter a companhia do meu pai quando chega em casa, apesar de cansado. Que minha mãe me procure quando estiver sozinha e aborrecida, em vez de me ignorar. Que meus irmãos “briguem” para poderem estar comigo. Quero sentir que a minha família deixa tudo de lado para passar alguns momentos comigo». Ao ouvir a leitura, o marido exclamou: «Pobre dessa menina! Que família ela tem!». A professora baixou os olhos e sussurrou: «É nossa filha!».

A estória confirma o que escreveram, em 2007, os bispos latino-americanos em sua reunião de Aparecida: «Os meios de comunicação invadem todos os espaços, inclusive a intimidade do lar. A sabedoria das tradições se vê obrigada a competir com a informação do último minuto, a distração e as imagens de “vencedores” que sabem usar a seu favor as ferramentas tecnológicas, levando as pessoas buscarem afoitamente um sentido para a vida onde nunca poderão encontrá-lo».

Dom Redovino Rizzardo, Bispo de Dourados (MS)


Solenidade da Santíssima Trindade



Sirva de texto de meditação  para esta solenidade  a reflexão a de Nicolau Cabasilas, Padre do Oriente.
“Embora a Trindade santa tenha dado a salvação  ao gênero humano mediante um só e único amor  pelos homens, a fé nos diz que cada uma das pessoas divinas tem contribuição particular.  O Pai reconcilia-se conosco, o Filho opera a reconciliação e o Espírito Santo é  dom concedido aos que se tornaram amigos de Deus.  O Pai nos libertou, o Filho foi o preço de nosso resgate; o Espírito Santo é a liberdade. De fato lá onde o Espírito se  faz presente há liberdade (2Cor 3, 17), diz  Paulo.  O Pai nos criou, o Filho nos recriou e o Espírito nos faz viver (cf. Jo 6,63).
Na criação inicial a Trindade estava presente em figura:  o Pai plasmava, o Filho era a mão do plasmador, o  Espírito, o sopro que inspirava a vida.  Por que digo isto?  Somente na nova criação foram reveladas as distinções de Deus.  Em todo o tempo  Deus derramou seus dons sobre  sua criação, mas não se encontra nenhuma revelação que se refira só ao Pai, só ao Filho ou só ao Espírito Santo, mas todos são comuns à Trindade pois com um só poder, uma só providência e uma só ação criadora ela realiza todas as coisas.
No desígnio da salvação  com o qual restaurou  o gênero humano, renovando-o foi a Trindade inteira que quis minha salvação  e que providencia sua realização, mas não  a Trindade inteira que a efetivou.  Seu artífice não é nem o Pai, nem o Espírito, mas somente o Filho. Foi ele que assumiu a carne e o sangue,  ele foi  flagelado, sofreu e morreu e também ressuscitou. Por estes mistérios a natureza humana retomou vida e foi instituído o batismo, novo nascimento e nova criação.  Por isso, no batismo é necessário invocar  Deus  distinguindo  as pessoas – o Pai, o Filho, o Espírito Santo – que somente a nova criação nos revelou.

sábado, 25 de maio de 2013

#FicaAdica 85




 O coração anda no compasso que pode. Amores não sabem esperar o dia amanhecer. O exemplo é simples. O filho que chora tem a certeza de que a mãe velará seu sono. A vida é pequena, mas tão grande nestes espaços que aos cuidados pertencem. Joelhos esfolados são representações das dores do mundo. A mãe sabe disso. O filho, não. Aprenderá mais tarde, quando pela força do tempo que nos leva, ele precisará cuidar dos joelhos dos seus pequenos. O ciclo da história nos direciona para que não nos percamos das funções. São as regras da vida. E o melhor é obedecê-las. Tenho pensado muito no valor dos pequenos gestos e suas repercussões. Não há mágica que possa nos salvar do absurdo. O jeito é descobrir esta migalha de vida que sob as realidades insiste em permanecer. São exercícios simples... Retire a poeira de um móvel e o mundo ficará mais limpo por causa de você. É sensato pensar assim. Destrua o poder de uma calúnia, vedando a boca que tem ânsia de dizer o que a cabeça ainda não sabe, e alguém deixará de sofrer por causa de seu silêncio. Nestas estradas de tantos rostos desconhecidos é sempre bom que deixemos um espaço reservado para a calma. Preconceitos são filhos de nossos olhares apressados. O melhor é ir devagar. Que cada um cuide do que vê. Que cada um cuide do que diz. A razão é simples: o Reino de Deus pode começar ou terminar, na palavra que que escolhemos dizer. É simples...

Pe. Fábio de Melo

Leitura Bíblica: Eclesiástico 17,1-13



O primeiro artigo do Credo nos faz professar nossa fé em Deus Pai, criador do céu e da terra. Estamos acostumados a entrar em contato com a doutrina da criação a partir  dos dois primeiros capítulos do Gênesis.  A leitura do Eclesiástico,  hoje proclamada em nossa liturgia, faz uma leitura paralela ao texto do Gênesis e, de alguma forma, complementar.

Deus cria o homem  da terra, do barro.  Os homens são feitos à imagem de Deus. Temos em nós o selo do Altíssimo e, ao longo de nossa vida, haveremos de lutar para não perder a beleza de sermos imagem daquele que não é debaixo nem da terra.  O homem que é pó e terra volta à terra.  Mas é imagem de Deus.  No dizer de Pascal é fragilidade que pensa.

O homem é contingente, não é Deus. Seus dias são contados.   No entanto, está no centro de tudo.  Deus lhe deu autoridade sobre tudo o que existe. Ele é o guardião da terra, o cuidador, o governador das coisas que Deus dá para o uso de todos os seus filhos.   Deus infundiu nos animais, feras e  pássaros, temor pelo homem.

Em linhas admiráveis o autor do Eclesiástico descreve as grandezas da criatura homem: “Deu aos homens discernimento, língua, olhos, ouvidos e um coração para pensar; encheu-os de inteligência e de sabedoria. Deu-lhes ainda ciência do espírito, e encheu seu coração de bom senso e mostrou-lhe o bem e o mal”.    Esse ser espiritual capaz de discernir o bem do mal, de escolher o melhor, com a língua para comunicar-se, travar relacionamentos.  Deu-lhe ouvidos para pensar.  Curiosamente o Eclesiástico fala de “ouvidos”  para pensar.  Será que se pode pensar com os ouvidos?  Talvez a boa arte de escutar levar elementos importantes para o espírito e para o coração.

Deus fez o homem para ser cantor de suas obras e de suas grandezas. Caminhando pelas estradas, ouvindo o canto dos pássaros, contemplando o sorriso da criança no berço  e  riso desdentado  da velha senhora  cheia de paz  o homem haveria de louvar o criador.  Missão nobre e bela do homem a de reconhecer a glória de Deus presente em suas criaturas, criaturas que são  vestígios e traços do Senhor. “Concedeu-lhes ainda que se gloriassem de suas maravilhas, louvassem o seu nome santo e proclamassem as grandezas de suas obras”.

Uma observação cheia de sutileza e de atualidade:  “Concedeu-lhes ainda a instrução e entregou-lhes por herança a lei da vida”.  O homem é instruído pelo Alto, pelo Espírito que é derramado em seu coração.  Deus firma uma Aliança eterna com os homens e eles são responsáveis por guardar, proteger e promover a vida.  O homem é o grande administrador  da obra da criação, sobretudo cuidador da vida do irmão.  E para terminar: “Tomai cuidado com tudo o que é injusto”.

Frei Almir Ribeiro Guimarães

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Leitura Bíblica: Eclesiástico 6,5-17



Uma das palavras  mais doces que se conhece é precisamente a palavra amigo.  Nós, cristãos, gostamos de nos chamar de irmãos.  O Eclesiástico, no trecho hoje proclamado, tece considerações a respeito da amizade. Destaquemos algumas de suas observações:

● Multiplicamos amigos quando usamos de palavra amena, doce, carinhosa. Uma língua afável multiplica as saudações.  Fazemos relacionamento. Tecemos laços, mas nem sempre sólidos de verdade. As amizades precisam ser trabalhadas e alimentadas

● Passamos perto de muitos. Convivemos com colegas de trabalho, com membros de nossa família, com vizinhos. “Sejam  numerosos os que te saúdam, mas teus conselheiros um entre mil”.  Os íntimos não podem ser numerosos.  Há um tempo de maturação da amizade. Aliás, a verdadeira amizade nasce da provação, lembra o Eclesiástico.

● “Se queres adquirir um amigo, adquire-o na provação; e não te apresses em confiar nele”.

● A experiência nos diz que há amizades interesseiras. Há pessoas que dizem nos estimar enquanto somos úteis para sua ascensão. Quando perdem o interesse egoísta, esquecem que diziam tanto nos amar.  Há pessoas que se dizem amigas mas que abandonam o amigo na hora da aflição.

● Há amigos que mudam de opinião. Servem de confidências para destruir a boa fama daquele ao qual faziam declarações de amizade.  Pensamos na figura de Judas. “Há amigo que é companheiro de mesa e que não persevera  no dia da necessidade”.

● O Livro do Eclesiástico faz uma observação dura: “Afasta-te dos teus inimigos e toma cuidado com os teus amigos”.  Não estamos ainda no tempo novo do Evangelho de Jesus.

● Pensamos nas amizades espirituais, dentro e fora  da Igreja, companheiros de caminhada no seguimento de Cristo que partilham a vida,  que leem juntos as páginas dos Evangelhos, que juntos vão pelo mundo dizendo que o amor precisa ser amado.  Amigos-irmãos ou irmãos-amigos? Talvez muito mais irmãos da mesma aventura da fé. Para tanto, eles precisam comer juntos o pão da convivência fraterna, carregar juntos a cruz, rir as mesmas alegrias sob o olhar do Senhor.

● Os versículos que agora transcrevemos constituem  talvez as palavras mais belas da Escritura a respeito da amizade. O autor sagrado defende a fidelidade do e ao amigo: “Ao amigo fiel não há nada que se compare, é um bem inestimável. Um amigo fiel é um bálsamo de vida; os que temem o Senhor vão encontrá-lo”.

● Há amizades que duram a vida toda. Elas começam nos bancos da escola, nas brincadeiras entre vizinhos,  nas oficinas de uma fábrica. Os que se estimam se revelam, contam um com o outro, levam o fardo do amigo,  provam seu bem querer na usura do tempo, comem juntos e juntos escutam a voz do Senhor.

● O verdadeiro amigo é um preciosíssimo tesouro.

Frei Almir Ribeiro Guimarães