sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Leitura Bíblica: Mateus 11,16-19


“Com quem vou comparar esta geração? São como crianças sentadas nas praças, que gritam para os colegas, dizendo: ‘Tocamos flauta e vós não dançastes. Entoamos lamentações e vós não batestes no peito!’"

Na Sagrada Escritura, a mesma imagem pode ter valor positivo ou negativo. É o caso do “fermento” – em geral, com valor negativo (Ex 12,15; Mt 16,6), conotando corrupção e pecado, mas também usado por Jesus como imagem do Reino de Deus que cresce em silêncio, sem sinais exteriores (cf. Mt 13,33).

Neste Evangelho, são as crianças – que Jesus apontara como ideal a ser imitado (cf. Mc 10,15; Lc 10,21) – a imagem dos discípulos imaturos que vivem entre queixas e reclamações, como os judeus do tempo de Jesus, que recusavam ao mesmo tempo o Batista, por sua vida sóbria e ascética, e a Jesus de Nazaré, por gostar da boa mesa e de um bom vinho. Ainda hoje, nas paróquias e comunidades, há “crianças” eternamente insatisfeitas. Criticam o padre que celebra a missa muito depressa, mas reclamam do outro que faz a missa comprida. Fazem críticas se o padre não prega, manifestam seu desagrado se a homilia se estende. Se o coordenador é exigente, brotam queixas; se ele é democrático, cobram mais rigidez. Crianças insatisfeitas...

Os santos não são assim. Os santos são muito realistas. Partem da realidade que lhes é dada e se dedicam de alma e coração a cumprir a missão inadiável. Eles não pensam na Igreja ou em sua comunidade como um lugar onde se recebem favores e regalias. Sabem que sua tarefa consiste em imitar a Jesus, que lavou os pés de seus apóstolos. Mesmo que sejam elevados a posições de mando, eles entendem sua autoridade como um serviço aos irmãos.

As crianças querem afagos, elogios, atenções especiais. Se isso falta, emburram, amarram a tromba e iniciam sua ação deletéria, feita de críticas, acusações, formação de partidos. Se um desses imaturos acaba em posição de governança, será a vez de reclamar da má qualidade de seus governados, além de abusar do poder e da autoridade. Os imaturos são eternos insatisfeitos. Jamais serão felizes. E semearão à sua volta uma enxurrada de amargura. Pior ainda: verão passar em vão a graça de Deus e acabarão perdendo o bonde da história. Foi assim no tempo de Jesus. Continua assim em nossos tempos.

Quando atingiremos a estatura do homem perfeito? (Cf. Ef 4,13.) Quando deixaremos de lado nossas mamadeiras? (Cf. Hb 5,12.) Quando assumiremos a missão que Deus colocou em nossas mãos?

Orai sem cessar: “Eis que vim para fazer a tua vontade!” (Hb 10,9)

Texto de Antônio Carlos Santini, Comunidade Católica Nova Aliança.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Sempre alegres

Certo dia, estando de passagem pela Bahia, vi numa praia um velho pescador que pescava com vara. Parei e fiquei assistindo.

Durante mais de meia hora o pescador ficou controlando um peixe que já estava fisgado; o peixe era grande e estava se debatendo. Se o pescador quisesse puxar a linha imediatamente, não conseguiria pescá-lo; o peixe iria escapar do anzol ou a sua boca iria se rasgar.

O pescador foi controlando, soltando a linha e deixando o peixe se debater; depois puxava de novo a linha... Isso durou mais de meia hora. No momento certo ele trouxe o peixe para fora da água: era um peixe enorme. Vi toda a arte daquele pescador... seu sorriso quando puxou o peixe. Pude ver a sua realização... Para mim foi uma lição maravilhosa.

Deus procede assim conosco. Somos indóceis e rebeldes como o peixe, achando que somos donos do mundo. Só que estamos sob o controle de Deus.
Deus nos ama e não irá deixar de nos amar, mesmo se rejeitamos o seu amor, pois já estamos fisgados. Ele sabe que cedo ou tarde iremos ao seu encontro.

Quanto mais o peixe se debate mais sofre e se machuca. Nós somos assim, também. Acabamos nos ferindo pela nossa própria rebeldia.

Temos que nos lançar nos braços de Deus. Precisamos dar graças, mesmo não entendendo, porque Deus é mais artista do que aquele pescador.

Eu estava ao lado do pescador, contemplando tudo. Não entendia da arte de dominar um peixe daquele tamanho, pego numa linha por um anzol. Eu não podia dar nenhum palpite, mas estava ao lado, torcendo por aquele pescador. É assim que ficamos ao lado de Deus.

Diante das situações mais intrincadas, por nossas forças, não conseguimos nada, mas se estamos ao lado de Deus, tudo é possível.

A primeira coisa que acontece, quando estamos afastados de Deus é perder a alegria. Aí não se realiza o ''estai sempre alegres''. E a tristeza nos pega. Mas no momento em que fazemos as pazes com Deus, a alegria nos invade o coração.

A palavra de Deus nos afirma que ''a alegria é um inesgotável tesouro de santidade. A alegria do homem torna mais longa a sua vida''. Esta é uma verdade.

A consequência das decepções e tristezas é a morte. A palavra de Deus nos ordena: ''Afasta a tristeza para longe de ti, pois a tristeza matou a muitos'' (cf. Eclo 30, 22-27).


Trecho do livro “Combatentes na Alegria”,  Monsenhor Jonas Abib

Maria, a senhora das senhoras

Comemoramos hoje a Senhora de Guadalupe, Maria que apareceu ao humilde e bom índio Dieguito. Nós, fiéis discípulos de Jesus, aprendemos a olhar com carinho e toda ternura a Mãe desse que é nossa esperança e nossa vida.

A comemoração de hoje é encantadora. A Mãe de Jesus, senhora da glória, aparece a um camponês sincero e simples. Trata-o com ternura e pede que ali, naquele lugar, seja erguida uma igreja. Dieguito convence o bispo e num lugar e num tempo sem rosas, ele consegue  colocar  diante do pastor da diocese muitas destas flores e no manto que as envolvia estavam gravados os traços da Senhora de Guadalupe. Escrevendo sobre o tema o Papa Bento XIV, em 1754, relatava: “Nela tudo é milagroso: uma imagem que provém das flores colhidas num terreno totalmente estéril, no qual só podem crescer espinheiros; uma imagem estampada numa tela tão rala que, através dela, pode enxergar o povo e a nave da igreja tão facilmente como através de um filó; uma imagem nada deteriorada nem no seu supremo encanto, nem no brilho de suas cores, pelas emanações do lago vizinho que, todavia, corroem a prata, o ouro e o bronze… Deus não agiu assim  com nenhuma outra nação”.

Hoje, Maria está na glória, em corpo e alma. É a Senhora assunta. Em corpo e alma está toda transfigurada junto do Filho. Desde começou a existir essa mulher de Nazaré  não conheceu a desordem, a desarmonia, o pecado. Tudo nela era abertura a Deus. O seu grande refrão: “Faça-se em mim segundo a tua Palavra”.

Lá está ela, Maria do presépio, olhando os pastores simples e pobres que dizem terem sido notificados do nascimento do Menino. Ela escuta e fica admirada. Não sabe o que dizer. Mas guarda tudo no fundo do coração. Acompanha o crescimento do Menino em idade, graça e sabedoria diante dos homens e diante de Deus.  Vive a vida de Nazaré, das coisas cotidianas, das coisas sem muito aparato.  Tem ela o jeito de rezar que tinha Abraão. Certamente, deixou-se impregnar pela espiritualidade dos pobres de Javé pela recitação e ruminação dos salmos. Acompanha de longe os passos do filho e se faz presente na hora das horas cravando suas unhas na cruz, no leito de morte do Menino das Palhas. Depois que tudo havia terminado no alto daquela colina, da colina do Gólgota, ela recebe em seus braços o filho morto, esperando que Deus a arrancasse da morte.  Naquele momento, ela é a Senhora da Pietà.

Maria de Nazaré, Maria das Bodas de Caná, Maria  dos pequenos, Maria de Bernadette Soubirous, Maria de Dieguito,   Maria de Lourdes,  Maria do Advento, Maria da Visitação, Maria do Natal,  Maria Aparecida… Nossa Senhora de Guadalupe.

Frei Almir Ribeiro Guimarães


terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Leitura Bíblica: Isaías 40, 1-11; Mateus 18, 12-14

Isaías nos transmite um texto de profundíssima alegria: acabou-se a servidão. O profeta anuncia, de fato, uma incontida alegria. No meio do texto, ele mesmo se pergunta a respeito do que deve anunciar: “Dizia uma voz: Grita. E respondi: O que devo gritar? A criatura humana é feno, toda a sua glória é como  flor do campo: seca o feno, murcha a flor, mas a palavra de nosso Deus fica para sempre”. Sim, a Palavra permanece para sempre e essa Palavra se torna carne, em Jesus o menino das palhas, palhas-feno, criança que nasce num canto do Oriente. Tudo passa,  menos a  Palavra que se tornou carne, e habitou entre nós. O profeta deverá subir a uma alta montanha e anunciar a boa nova.

Os autores do Missal Cotidiano da Paulus assim comentam o trecho de Isaías proclamado em nossa liturgia: “Descreve o  profeta aquele que está para vir e, ao mesmo tempo, exorta os homens a preparar-lhe o caminho. Não é mais tempo de desânimo e de tristeza, mesmo os que perderam a confiança devem crer novamente: o Senhor vem de verdade! Mas têm os homens esta sensação? Num mundo cheio de misérias e maldades, a visão de Deus é  muitas vezes  deformada. Há quem pretenda que Deus intervenha sempre com um  toque mágico para sanar as chagas da humanidade: há quem veja nele apenas o juiz inexorável que nos espiona para punir todas as iniquidades. E, no entanto, as palavras de Deus são, sobretudo, palavras de paz. É um Deus que vem com poder, mas poder que se apresenta sob as imagens mais afáveis e carinhosas, como a do pastor que apascenta o seu rebanho e traz aos ombros os cordeirinhos. Jesus assumirá esta imagem e toda a vida e todos os seus atos revelarão o amor do Pai, a sua verdadeira face”  (p. 38).

O Senhor que vem tem o nome de Pastor. Isaías assim o descreve: ele é pastor forte, reúne os cordeiros, carrega-os ao colo. Mateus, no Evangelho hoje proclamado, fala do Deus pastor que não deseja que nenhum dos pequeninos venha a se perder. O Deus que vem no Natal vai se tornar o grande pastor das ovelhas desgarradas e perdidas. Vem para juntar as perdidas e fazer com que haja comida, casa e proteção  para todas.

Frei Almir Ribeiro Guimarães


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

#FicaAdica 53



A paz (shalom) é um dom de Deus, mas é preciso desejá-la, buscá-la, estar numa busca intensa de pacificação. A paz começa dentro de nós quando abrimos nossa mente e coração para que ela faça parte de nós. Somente depois, poderemos anunciá-la às pessoas, principalmente através de nosso testemunho. A paz tem um poder imenso de curar nossas feridas interiores, de nos proporcionar um jeito novo e diferente de viver neste planeta.

A paz não significa conformismo com as situações do mundo, mas ela nos impele a uma vida de justiça, solidariedade e fraternidade. A paz é fruto do respeito, da capacidade acolher o diferente, de buscar o diálogo e viver o ecumenismo. A paz nos impele a anunciar o amor de Deus como cura para as guerras, para os conflitos, para a agressividade. Temos que criar uma cultura de paz para restaurar a criação segundo o plano de Deus.

Frei Paulo Sérgio, ofm

Leitura Bíblica: Isaías 35,1-10


A proximidade do Natal produz efeitos: o recolhimento expectante acaba por extravasar e o roxo dos paramentos será trocado pelo róseo no próximo domingo. Algo assim como a fímbria das montanhas que se vai tornando rosada pela aurora que se avizinha. É o domingo “Gaudete”: um imperativo latino que se traduz por alegrai-vos! Rejubilai-vos!

Não a alegria mundana, barulhenta, a alacridade das maritacas no coqueiro. Não a algazarra artificial produzida à custa de álcool e de drogas. Mas o “gáudio”, o “gozo”, a “letícia” íntima e profunda que só o Deus da vida pode dar. Ainda que, invadidos pela alegria, nós nos descontrolemos a ponto de “saltar, gritar e dançar” (Is 35,2)...

Eis o comentário de Urs von Balthasar: “Isaías descreve a transformação do deserto em região fértil com a vinda de Deus. “Vede! Eis o vosso Deus!” O deserto é o mundo que Deus ainda não visitou, mas agora Deus está vindo. O homem é cego, surdo, coxo, mudo, quando Deus ainda não o visitou, mas agora os sentidos se abrem e os membros se soltam”.

E a visita de Deus realiza uma libertação sem limites: “Os ídolos que eram adorados em lugar do Deus vivo, também eles eram como o descrevem os Salmos e os livros sapienciais: cegos, surdos, coxos e mudos, e seus adoradores a eles se assemelhavam. Estes se haviam desviado do Deus vivo, mas agora “regressam os redimidos de Yahweh” (v. 9): eles estão libertados da morte espiritual e renascem para a verdadeira vida”.

Por que a cidade permanece tão triste? Por que o planeta dos homens ainda “geme como em dores do parto”? (Cf. Rm 8,22) Por que ainda cavam cisternas que não podem reter a água, enquanto a fonte das águas vivas permanece todo tempo à sua disposição?

Com o Natal tão próximo, voltemo-nos para a fonte da alegria. O pequeno presépio – o boi e o burro são testemunhas! – nos ensina que a alegria é simples. Tão simples como um recém-nascido nos braços de sua mãe. Mas a luz que dele se irradia afasta toda treva e anuncia que Deus se compadeceu de seu povo e vem inaugurar uma era nova de paz para todos os homens.

É esta a nossa alegria?

Orai sem cessar: “Em vós, Senhor, eu estremeço de alegria!” (Sl 9,3)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Leitura Bíblica: Baruc 5, 1-9; Filipenses 1,4-6.8-11; Lucas 3, 1-6


A estrada do Advento que nos leva ao Natal vai sendo rasgada pelos corações dos pobres, dos que constituem o resto fiel de Javé.

Baruc fala de uma grande alegria.  O profeta não encontra palavras adequadas para descrever o que está para acontecer depois da catástrofe. Jerusalém é convidada a deixar a veste luto, veste de saco, veste esfarrapada.  O povo que passou pela purificação deverá agora revestir-se de trajes de glória e colocar na cabeça um diadema de ouro.  Quanta diferença! O povo havia saído escorraçado.  O profeta pede que Jerusalém levante a cabeça e aprecie o espetáculo que faz a mão do Senhor:  “Saíram de ti, caminhando a pé,  levados pelos inimigos. Deus os devolve a ti, conduzidos com honras, como príncipes reais. Deus ordenou que se abaixassem todos os altos montes e as colinas externas e se enchessem  os vales para aplainar a terra para que  Israel  caminhe com segurança  sob a glória de Deus”.  Que vereda santa é esta?  A trilha da conversão e da bondade.

Volta, volta jubilosa dos cativos a Israel!

“Quando o Senhor reconduziu  nossos cativos, parecíamos sonhar, encheu-se de sorriso nossa boca, nossos lábios de canções” (Salmo 135).

O trecho de Paulo aos Filipenses proclamado na liturgia deste domingo é cheio de ternura e de alegria.  Desde os primeiros dias os cristãos de Filipos estiveram unidos a  Paulo na pregação do Evangelho.  Paulo tem a todos em suas orações.  Ele faz uma declaração consoladora: “Aquele que começou uma obra  boa em vós há de leva-la até à perfeição até o dia de Cristo Jesus”.  Advento, tempo de reflexão, para contemplarmos a ação de Deus em nós e na Igreja, levando-nos à perfeição.

Tempo de advento, tempo de espera do Senhor, tempo em que deixamos nosso coração se voltar para o primeiro amor, em que temos saudade do tempo em que tínhamos grande e forte desejo de santidade e andávamos empenhamos  nesse sentido.  O dia de Cristo Jesus, no quadro da liturgia, é o de sua vinda entre nós no mistério do Natal.

Paulo escolhe as mais belas expressões para falar de seu amor pelos filipenses: “Deus é testemunha de que tenho saudade de todos vós, com a ternura de Cristo Jesus”.

Lucas se compraz em descrever o dia em que todos verão a salvação de Deus.  Era o décimo quinto ano do império de Tibério  César, Pilatos era governador  na Judéia,  Herodes administrava a Galileia.. nesse tempo a palavra foi dirigida a João que morava no deserto, o esguio filho de Zacarias… Ele fora convocado a percorrer os caminhos dos homens pedindo-lhes conversão e assim  enchia os vales e abaixava as colinas para que houvesse uma estrada santa para Deus ser recebido no coração dos homens.

Frei Almir Ribeiro Guimarães