segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Leitura Bíblica: Mateus 25, 31-46


“Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: 'Vinde benditos de meu Pai! Recebei como herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo! Entrai na herança do Reino!’” (Mt 25,34)

Podemos viver nossa religião como mendigos, tentando arrancar uma esmolinha de Deus, como se ele não fosse nosso Pai. O filho pródigo cometeu este engano: chegou a propor ao Pai que o tratasse como servo da casa, como se fosse possível um pai deixar de ser pai...

Podemos viver nossa religião como atletas, tentando exercitar os músculos das virtudes e, após longo treinamento, vencer a olimpíada do espírito e subir no pódio, coroados com os louros celestes. Com os anjos aplaudindo, é claro!

Podemos viver nossa religião como alquimistas medievais, debruçados sobre velhos pergaminhos, em busca da pedra filosofal. Uma vez dominado o secreto conhecimento das coisas divinas, tomaremos posse do céu num piscar de olhos: pura mágica!

De uma forma ou de outra, estamos longe da estrada real. Nem mendigos, nem recordistas, nem “iluminados”. Cristianismo é outra coisa... O cristão – desde o seu Batismo – foi adotado como filho. Já não é mais escravo. Nem mesmo simples criatura. Na estatura de filho, o cristão tem direito à herança!

Lembra-se de Abrão e de sua queixa ao Senhor Javé? Velho e sem herdeiros, sua herança acabaria nas mãos do escravo que vivia em sua casa (cf. Gn 15,2). Mas, apesar da gemedeira do ancião, Deus tinha outros planos, que incluíam uma numerosa descendência para Abraão, culminando com o nascimento de Jesus.

Isto devia ser bem claro para nós: somos herdeiros de Deus. Em Jesus Cristo, enxertados em seu corpo, o que espera por nós é uma herança que não se traduz em valores materiais, objetos, terras e rebanhos. Nossa herança é o próprio Senhor!

Mas nossa herança é típica, diferente de todas as outras. Os outros herdeiros devem esperar a morte do pai para terem acesso à herança. Em nosso caso, não há nada a esperar. Afinal, Jesus já morreu por nós. Isto quer dizer que podemos tomar posse da herança desde já, aqui na terra, ainda que de modo parcial. Já é possível viver nossa condição de herdeiros em nossos dia-a-dia, fruindo o amor infinito que o Pai derrama sobre “todo homem que vem a este mundo”.

Se eu fosse Deus e Pai, ficaria muito chateado com essa multidão de mendigos...

Orai sem cessar: “O Senhor é minha herança e minha parte na taça.” (Sl 16,5)

Antônio Carlos Santini, Comunidade Católica Nova Aliança.


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Que liberdade é esta...


Que liberdade é esta, surpreendente, desconcertante, desse Bento XVI? Onde encontrou luz, fibra, inspiração para tomar uma decisão tão importante deixando-se guiar somente pela sua consciência? Qual o segredo desse homem tão frágil fisicamente e tão gigante na fé?

O segredo é uma Pessoa, é Jesus Cristo nosso Senhor, em Quem o Santo Padre sempre teve seu olhar fixo! Seu amor a Jesus, sua intimidade com Jesus, sua entrega total a Jesus - eis o motivo de Bento XVI, o único, simples e absoluto motivo!
 

Sabem o que me impressiona e faz-me rir, meus amigos? É a tremenda hipocrisia de um mundo que vive falando em autenticidade, liberdade, em simplicidade, e quando encontra um homem tão autêntico, tão livre, tão simples quanto Bento XVI, fica apavorado, não o compreende e, então, sem compreender a simplicidade desarmada de seus motivos, a limpidez de sua palavra, fica a todo custo inventando motivos, procurando explicações complexas, criando conspirações e tramas...

Tudo porque não consegue suportar, não pode compreender, não é capaz de enquadrar a lógica de um homem que vive, pensa e age segundo o Evangelho.


Na verdade, nunca agradeceremos o bastante ao Santo Padre Bento XVI por este seu vívido e profético gesto de amor a Cristo e à Igreja!


Confesso sem acanhamento: esse homem é um gigante, diante do qual sinto-me miseravelmente pequeno.

Que orgulho tenho de Cristo, que gera homens assim, livres!

Que orgulho tenho da Igreja, minha Mãe, que mostra ao mundo pastores assim, generosos, preocupados do interesse de Cristo e não dos seus próprios!


Que gratidão deveríamos ter ao Senhor por presenciar gestos assim!

Dom Henrique Soares da Costa

#FicaAdica 65





Sabemos que o amor não dispensa as palavras, mas que em muitos momentos o olhar conta mais… Através do olhar conseguimos transmitir aquilo que as palavras não conseguem dizer. Através dos gestos, do toque, das mãos também atingimos os corações. É preciso entender a comunicação do amor que fala, mesmo que no silêncio da própria fala!

Estamos iniciando um tempo privilegiado de conversão e de mudança de vida. Que possamos rever nossas ações, nossas vidas e até nossa prática de fé. Que possamos fazer a travessia desse deserto na certeza do encontro com a luz da ressurreição. Que possamos crer sempre mais na presença de Deus na condução de nossas vidas…

Frei Paulo Sérgio, ofm

(CIC) O sentido da morte cristã



Graças a Cristo, a morte cristã tem um sentido positivo. "Para mim, a vida é Cristo, e morrer é lucro" (Fl 1,21). "Fiel é esta palavra: se com Ele morremos, com Ele viveremos" (2Tm 1,11). A novidade essencial da morte cristã está  nisto: pelo Batismo, o cristão já está sacramentalmente "morto com Cristo", para Viver de uma vida nova; e, se morrermos na graça de Cristo, a morte física consuma este "morrer com Cristo" e completa, assim, nossa incorporação a ele em seu ato redentor:

É bom para mim morrer em ("eis") Cristo Jesus, melhor do que reinar até as extremidades da terra. É a Ele que procuro, Ele que morreu por nós: é Ele que quero, Ele que ressuscitou por nós. Meu nascimento aproxima-se. (...) Deixai-me receber a pura luz; quando tiver chegado lá, serei homem.  (Sto. Inácio de Antioquia)

Na morte, Deus chama o homem a si. É por isso que o cristão pode sentir, em relação à morte, um desejo semelhante ao de São Paulo: "O meu desejo é partir e ir estar com Cristo" (Fl 1,23); e pode transformar sua própria morte em um ato de obediência e de amor ao Pai, a exemplo de Cristo:

Meu desejo terrestre foi crucificado; (...) há em mim uma  água viva que murmura e que diz dentro de mim: "Vem para o Pai". (Sto. Inácio de Antioquia)

Quero ver a Deus, e para vê-lo é preciso morrer. (Sta. Teresa de Jesus)

Eu não morro, entro na vida. (Sta. Terezinha do Menino Jesus)

A visão cristã da morte é expressa de forma privilegiada na liturgia da Igreja:

Senhor, para os que creem em vós, a vida não é tirada, mas transformada. E, desfeito nosso corpo mortal, nos é dado, nos céus, um corpo imperecível.

A morte é o fim da peregrinação terrestre do homem, do tempo de graça e de misericórdia que Deus lhe oferece para realizar sua vida terrestre segundo o projeto divino e para decidir seu destino último. Quando tiver terminado "o único curso de nossa vida terrestre", não voltaremos mais a outras vidas terrestres. "Os homens devem morrer uma só vez" (Hb 9,27). Não existe "reencarnação" depois da morte.

A Igreja nos encoraja à preparação da hora de nossa morte ("Livra-nos, Senhor, de uma morte súbita e imprevista": antiga ladainha de todos os santos, a pedir à Mãe de Deus que interceda por nós "na hora de nossa morte" (oração da "Ave-Maria") e a entregar-nos a São José, padroeiro da boa morte:

Em todas as tuas ações, em todos os teus pensamentos deverias comportar-te como se tivesses de morrer hoje. Se tua consciência estivesse tranquila, não terias muito medo da morte. Seria melhor evitar o pecado que fugir da morte. Se não estás preparado hoje, como o estarás amanhã? (Imitação de Cristo)

Louvado sejais, meu Senhor, por nossa irmã, a morte corporal, da qual homem algum pode escapar. Ai dos que morrerem em pecado mortal, felizes aqueles que ela encontrar conforme a vossa santíssima vontade, pois a segunda morte não lhes fará  mal. (São Francisco de Assis)


Catecismo da Igreja Católica, § 1010-1014

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Começando o tempo favorável da Quaresma



Começamos o santo e propício tempo da Quaresma.  Durante quarenta dias, os cristãos, lá onde vivem, lá onde são discípulos do Senhor, vão viver um tempo caracterizado pelo empenho  na linha da conversão evangélica.  Somos companheiros de Jesus que vai para o deserto preparar-se para sua missão, deserto espaço de silêncio, de interiorização, mas também de combate contra o espírito do mal. Na oração de abertura da Missa de hoje, pedimos que “a penitência nos fortaleça no combate contra o espírito do mal”.  Arregaçamos as mangas e organizamos, da melhor maneira possível, essa riquíssima quadra do ano que nos leva até o esplendor da manhã de Páscoa, centro de nossa fé.

Joel,  o profeta, nos convida a rasgar os corações e não as vestes. Uns e outros experimentamos um sério mal-estar: não conseguimos ser fiéis aos carinhos e às manifestações do Senhor.  Há um sentimento de remorso que, por vezes, toma conta de nós.  Será preciso  “rasgar” os corações, mudar o interior para que brilhante seja o exterior. É tempo de jejuarmos de nós mesmos, de nossos interesses pequenos, de nossas preferências tacanhas. Há um convite explícito a que visitemos o coração, nutramos sentimentos nobres de arrependimento e formulemos propósitos de conversão.  Estamos  começando o tempo favorável. Paulo nos diz: “Em nome de Cristo  nós vos suplicamos: deixai-vos reconciliar com Deus”.  Não se trata apenas da recepção do sacramento da reconciliação numa rápida celebração quaresmal.  Trata-se de entrar no caminho dos penitentes, daqueles que têm o amargo como doce, e o doce como amargo.  O Apóstolo prossegue:  “É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação”.

Os cristãos se caracterizam por uma lisura de vida, por um comportamento sem duplicidade, por uma existência transparente.  Não cultivam a fachada, não se “maquiam” com água benta e piedosas palavras. Não fazem suas obras diante dos homens. Quando operam o bem, quando dão esmolas, quando se engajam em  promover a justiça, em valorizar o ser humano não tocam a trombeta.  Fazem o bem sem alarde, sem esperar recompensa. Quando rezam, entram no quarto e se dirigem ao Pai sem adereços e pompas. O Pai ouve os seus no silêncio.  Quando  jejuam, quando se privam das coisas lícitas para fortalecer o interior mostram um semblante alegre  e exalam  o perfume da discrição.

Assim, começamos a viver o tempo da Quaresma.  Colocamos cinza em nossas frontes.  Queremos nos recordar que somos pó e nada mais que pó, mas que somos amados por aquele que transforma esse pó que somos nós em luminosos cidadãos de seu coração e de seu reino.  O pedido da Quaresma é bem  este:  “Criai em mim um coração que seja puro, dai-me de novo um  espírito decidido”.

Frei Almir Ribeiro Guimarães

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Por que o Papa renunciou?

Non prævalebunt!

Na manhã deste dia 11 de fevereiro, memória de Nossa Senhora de Lourdes, fomos colhidos pela notícia espantosa de que o Santo Padre, o Papa Bento XVI, renunciou ao ministério de Bispo de Roma, Sucessor de São Pedro.

Em discurso ao Consistório dos Cardeais reunidos diante dele, o Papa declarou que o faz "bem consciente da gravidade deste ato" e "com plena liberdade".

É evidente que a renúncia de um Papa é algo inaudito nos tempos modernos. A última renúncia foi de Gregório XII em 1415. A notícia nos deixa a todos perplexos e com um grande sentimento de perda. Mas este sentimento é um bom sinal. É sinal de que amamos o Papa, e, porque o amamos, estamos chocados com a sua decisão.
Diante da novidade do gesto, no entanto, já começam a surgir teorias fabulosas de que o Papa estaria renunciando por causa das dificuldades de seu pontificado ou que até mesmo estaria sofrendo pressões não se sabe de que espécie.

O fato, porém, é que, conhecendo a personalidade e o pensamento de Bento XVI, nada nos autoriza a arriscar esta hipótese. No seu livro Luz do mundo
(p. 48-49), o Santo Padre já previa esta possibilidade da renúncia. Durante a entrevista, o Santo Padre falava com o jornalista Peter Seewald a respeito dos escândalos de pedofilia e as pressões:

"Pergunta: Pensou, alguma vez, em pedir demissão?

Resposta: Quando o perigo é grande, não é possível escapar. Eis por que este, certamente, não é o momento de demitir-se. Precisamente em momentos como estes é que se faz necessário resistir e superar as situações difíceis. Este é o meu pensamento. É possível demitir-se em um momento de serenidade, ou quando simplesmente já não se aguenta. Não é possível, porém, fugir justamente no momento do perigo e dizer: "Que outro cuide disso!"

Pergunta: Por conseguinte, é imaginável uma situação na qual o senhor considere oportuno que o Papa se demita?

Resposta: Sim. Quando um Papa chega à clara consciência de já não se encontrar em condições físicas, mentais e espirituais de exercer o encargo que lhe foi confiado, então tem o direito – e, em algumas circunstâncias, também o dever – de pedir demissão.
Ou seja, o próprio Papa reconhece que a renúncia diante de crises e pressões seria uma imoralidade. Seria a fuga do pastor e o abandono das ovelhas, como ele sabiamente nos exortava em sua homilia de início de ministério: "Rezai por mim, para que eu não fuja, por receio, diante dos lobos" (24/04/2005)."

Se hoje o Papa renuncia, podemos deduzir destas suas palavras programáticas, é porque vê que seja um momento de serenidade, em que os vagalhões das grandes crises parecem ter dado uma trégua, ao menos temporária, à barca de Pedro.

Podemos também deduzir que o Santo Padre escolheu o timing mais oportuno para sua renúncia, considerando dois aspectos:

Ele está plenamente lúcido. Seria realmente bastante inquietante que a notícia da renúncia viesse num momento em que, por razões de senilidade ou por alguma outra circunstância, pudéssemos legitimamente duvidar que o Santo Padre não estivesse compos sui (dono de si).

Estamos no início da quaresma. Com a quaresma a Igreja entra num grande retiro espiritual e não há momento mais oportuno para prepararmos um conclave através de nossas orações e sacrifícios espirituais. O novo Pontífice irá inaugurar seu ministério na proximidade da Páscoa do Senhor.

Por isto, apesar do grande sentimento de vazio e de perplexidade deste momento solene de nossa história, nada nos autoriza moralmente a duvidar do gesto do Santo Padre e nem deixar de depositar em Deus nossa confiança.

Peçamos com a Virgem de Lourdes que o Senhor, mais uma vez, derrame o dom do Espírito Santo sobre a sua Igreja e que o Colégio dos Cardeais escolha com sabedoria um novo Vigário de Cristo.

Nosso coração, cheio de gratidão pelo ministério de Bento XVI, gostaria que esta notícia não fosse verdade. Mas, se confiamos no Papa até aqui, porque agora negar-lhe a nossa confiança? Como filhos, nos vem a vontade de dizer: "não se vá, não nos deixe, não nos abandone!"

Mas não estamos sendo abandonados. A Igreja de Cristo permanecerá eternamente. O que o gesto do Papa então pede de nós, é mais do que confiança. É fé!

Fé naquelas palavras ditas por Nosso Senhor a São Pedro e a seus sucessores: "As portas do inferno não prevalecerão!" (Mt 16, 18).

Estas palavras permanecem inabaláveis através dos séculos!

Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior