quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

São João Bosco, o santo do sorriso

“Um santo triste é um triste santo”. Essa frase se repete nos corredores salesianos, nas obras de Dom Bosco. A vida cristã não deve ser encarada como penosa, cansativa ou entediante.

Os mais próximos de São João Bosco foram, com o tempo, percerbendo que seu sorriso era proporcional aos problemas. Quanto mais dificuldades, mais feliz parecia. Desse comportamento nascem preciosos ensinamentos: é preciso confiar na providência divina; nosso rosto não nos pertence, antes aos outros; não basta amar, é preciso expressar o amor. Quem está ao nosso redor precisa perceber nosso “odor” cristão da caridade.

Dom Bosco exalou fortemente o Cristianismo. Tanto que, quase 80 anos após sua canonização, sua mensagem continua atual. Sua santidade ainda inspira, cativa, ilumina. Há três anos, recebemos na Canção Nova suas relíquias, seu sorriso que desarmou as resistências dos jovens, afastou as desconfianças, atraiu a santidade.
São João Bosco tinha uma santa “obsessão” por seus jovens. Tinha prometido dedicar cada instante de sua vida a eles. Lutava pelo bem-estar de cada um, por uma vida mais digna, mas, antes de tudo, por sua salvação: “Dai-me almas e ficai com o resto”.

Essa “gana” por salvar almas levou São João Bosco a dedicar-se também aos novos meios de comunicação, à imprensa. Carisma que alcança ainda hoje a família salesiana.

Dom Bosco sempre fiel à Igreja, apesar das incompreensões – tentaram até interná-lo num hospício. Contudo, sua perseverança levou a uma adesão ao seu apostolado, a ponto de lhe ser confiado a construção de importantes igrejas.

Ao final de sua vida, toda gasta como uma vela, João Bosco declarou com humildade: “foi ela quem tudo fez”, numa alusão a Maria Auxiliadora dos Cristãos.

Osvaldo Luís, Jornalista da Canção Nova

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Leitura Bíblica: Marcos 4,1-20


Mais uma vez  ouvimos na Liturgia da Palavra a parábola do semeador.  Sempre de novo somos convidados a examinar a qualidade de  nossa escuta dos sons misteriosos  e  esplendorosos do coração de Deus.  Veneramos com especial carinho as palavras das Escrituras.  Desde a nossa mais tenra infância aprendemos a nos situar diante de suas recomendações,  verdades, exortações.  Sabemos também que  o Senhor tem  outros meios de  entrar  em contato conosco:  os acontecimentos de todos os dias, os sinais dos tempos,  as alegrias e os sofrimentos,  a voz dos mais abandonados, as exortações da Igreja.

Palavra, comunicação, semente… Deus fala,  deseja entrar em comunhão com os homens para  manifestar seu amor e operar maravilhas  no coração de cada um.  Jesus pregador é  ser desejoso de estabelecer  pontes. Do Pai sai a Palavra,  o Verbo  que corre veloz tentado  poder se alojar no seio das pessoas.  A Palavra chega perto de  Maria.  Acolhendo a Palavra  Deus nasce nela.  Este é o milagre da semente e a força da palavra.

A vida é  madrasta.  Por vezes os corações dos homens, entregues às suas preocupações pequenas  ou  grandes, vão  endurecendo por dentro. Uma vida de descuido da voz da consciência, posturas de indiferenças para as coisas do coração e da fé  fazem com os corações se tornem   duros como a pedra.  Deus quer falar,  mas  o chão é duro e terreno impermeável. “Oxalá ouvísseis hoje a voz do Senhor e  não endureçais o vosso coração”.  A semente cai no caminho pisado,  duro e o vento as leva para longe.

Há pessoas de  boa vontade.  Recolhem-se, cantam, participam das coisas da fé. Mas parece que o coração de alguns não tem profundidade.  São pessoas das exterioridades.  Há também  pedras.  A fé não foi à raiz de seu existir.  A raiz  não tinha suficiente  quantidade de terra  para alimentar uma planta sadia.  Tantos que começam bem, mas depois são influenciados por opiniões diferentes ou são fracos para  o desafio da fidelidade!

A vida é complicada.  Por vezes sentimo-nos no céu, junto de Deus.  Outras vezes andamos preocupados demais com  a graça do corpo, as roupas bonitas, o brilho disso e daquilo.  Tantos desejos que sufocam a plantinha que tinha começado a medrar… Vidas acanhadas;  semente que brota no meio de espinheiros.

Por fim  há tantos e tantos que estão na espera do Senhor, que sabem que ele anda batendo à porta, que  espera ser recebido na sala de nossa interioridade.  Acolhendo o  Senhor as pessoas  que são terra  boa ficam, por assim dizer, grávidas de Deus.  “Aqueles que recebem a semente em terreno bom  são os ouvem a Palavra, a recebem e dão fruto;  uma dá trinta, outro sessenta e outro cem por um”.

Frei Almir Ribeiro Guimarães


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Leitura Bíblica: Marcos 3,31-35



Novamente vemos Jesus com uma multidão à sua volta.  Muitos iam buscar junto dele a cura de suas doenças e a solução de suas dificuldades.  Outros, talvez  estivessem vislumbrando em suas palavras um universo de vida  novo e empolgante.  Jesus pregava sabendo que era importante dar tempo ao tempo.  E certamente alguns  estavam se esforçando por ouvir as palavras fundas e profundas que saiam dos lábios de Jesus.   Vemos  Jesus ocupado com as coisas do  Pai.  Está tentando penetrar o  fundo da história dos que estavam a seu redor.

A mãe de Jesus e sua parentela  se fazem anunciar.  Estão  à porta.  Querem estar com ele. Jesus não rejeita, mas adia o encontro. Serve-se  do acontecido para  dilatar o horizonte de seus ouvintes. A família carnal é importante na vida de todos.  Nossos pais, nossos parentes, nossos irmãos de sangue foram criando laços  estreitos conosco.  Gostamos de estar  juntos, de comer juntos, de contar  nossas  “histórias”.  Quando  um membro se ausenta, sentimos sua falta. Sofremos com os que sofrem.  Ajudamos os que podemos ajudar.   De modo particularíssimo  há essa piedade amorosa e reverente dos filhos para com seus pais.  Ficamos sempre profundamente sensibilizados vendo filhos cuidando amorosamente de seus pais muito idosos, impacientes,  exigentes e carentes. Jesus não rejeita seus parentes.  Seus irmãos e suas irmãs, no entanto, são os que fazem a  vontade do Pai.

Há os laços de sangue, mas há também laços e liames que se instauram porque nascemos da fé.  Os que  se dispõem  a fazer   vontade do Pai  são os parentes próximos de Jesus.  Jesus insiste  no fazer a vontade do Pai.   O trecho da  Carta aos Hebreus hoje proclamada  fala da pouca importância  do sangue de touros ou de  bodes.  Jesus vem fazer  a vontade do Pai.  Jesus oferece seu corpo.  “Tu não quiseste,  nem  te agradaram vítimas,  oferendas,  holocaustos, sacrifícios pelo pecado  – coisas oferecidas segundo a lei -,  ele acrescenta: Eu   vim para fazer a tua vontade”.  O ar que  Jesus respira é o de fazer  carinhosamente  aquilo que o Pai pede.  Maria havia se apresentado com o mesmo propósito:  fazer nela segundo a vontade.  Cada um  nós somos convidados a fazer essa vontade:  no casamento, no colocar filhos no mundo, nos momentos de alegria ou de sofrimento.  Realizando os desígnios do Pai criamos o mundo novo, sonho do coração do  Altíssimo.  A família de Jesus é constituída dos que colaboram com a obra do Pai.  “Olhando para os que estavam sentados  ao redor, disse: Aqui estão minha mãe e meus irmãos.  Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã, minha mãe”.

Frei Almir Ribeiro Guimarães


domingo, 27 de janeiro de 2013

#FicaAdica62




A vida tem seus opostos e eles se complementam: a noite recolhe no seu silêncio tudo aquilo que foi semeado no dia. Ela permite nascer a semente e desabrochar a flor. E ela não precisa receber o reconhecimento: ela deixa isso ao dia, à luz, ao calor! Assim também acontece em nossas vidas: experimentamos alegria e tristeza; o encontro e a separação; o abraço do reencontro e as lágrimas da despedida…
É preciso sabedoria para entender que os opostos se atraem e se complementam. É preciso paciência e amor para esperar o tempo da colheita: nela ninguém se lembrará do sofrimento do plantio e nem do trabalho da capina… É nos opostos que vamos experimentando a síntese que vamos fazendo em cada experiência, em cada fase da própria vida. Então, meu caro, prepare bem a terra de sues canteiros, semeie com alegria, cultive com esperança… os frutos logo virão!

Frei Paulo Sérgio, ofm

(CIC) Morrer em Cristo

Para ressuscitar com Cristo é preciso morrer com Cristo, é preciso "deixar a mansão deste corpo para ir morar junto do Senhor" (2 Cor 5,8). Nesta "partida" que é a morte, a alma é separada do corpo. Ela será  reunida a seu corpo no dia da ressurreição dos mortos.

A MORTE
"É diante da morte que o enigma da condição humana atinge seu ponto mais alto." Em certo sentido, a morte corporal é natural; mas para a fé ela é na realidade "salário do pecado" (Rm 6,23). E, para os que morrem na graça de Cristo, é uma participação na morte do Senhor, a fim de poder participar também de sua Ressurreição.

A morte é o termo da vida terrestre. Nossas vidas são medidas pelo tempo, ao longo do qual passamos por mudanças, envelhecemos e, como acontece com todos os seres vivos da terra, a morte aparece como o fim normal da vida. Este aspecto da morte marca nossas vidas com um caráter de urgência: a lembrança de nossa mortalidade serve também para recordar-nos de que temos um tempo limitado para realizar nossa vida:

Lembra-te de teu Criador nos dias de tua mocidade (...) antes que o pó volte à terra donde veio, e o sopro volte a Deus, que o concedeu (Ecl 12,1.7).

A morte é consequência do pecado. Intérprete autêntico das afirmações da Sagrada Escritura e da tradição, o magistério da Igreja ensina que a morte entrou no mundo por causa do pecado do homem. Embora o homem tivesse uma natureza mortal, Deus o destinava a não morrer. A morte foi, portanto, contrária aos desígnios de Deus criador e entrou no mundo como consequência do pecado. "A morte corporal, à qual o homem teria sido subtraído se não tivesse pecado", é assim "o último inimigo" do homem a ser vencido (1 Cor 15,26).

A morte é transformada por Cristo. Jesus, o Filho de Deus sofreu também Ele a morte, própria da condição humana. Todavia, apesar de seu pavor diante dela, assumiu-a em um ato de submissão total e livre à vontade de seu Pai. A obediência de Jesus transformou a maldição da morte em bênção.


Catecismo da Igreja Católica, § 1006-1009

Leitura Bíblica: Lucas 1, 1-4; 4, 14-21

Então começou a dizer-lhes: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir” (Lc 1,21)


Ao longo dos séculos, o Povo Escolhido do Senhor aguardava pelo Messias prometido aos pais. Não apenas uma simples espera no tempo, mas a atenta expectativa de Israel, alimentada pelos sonhos dos patriarcas e pelos oráculos dos profetas.

Bastava recorrer às Escrituras e tudo estava registrado:

- O descendente da Mulher pisaria a cabeça da serpente (Gn 3, 15);
- Uma Virgem conceberia o Deus-conosco (Is 7, 14);
- Seu nascimento ocorreria em Belém Efrata (Mq 5, 1);
- Ele seria cheio do Espírito de Deus e anunciaria a Boa Nova aos pobres de Yahweh, proclamando a libertação aos cativos (Is 61, 1).

Ora, foi exatamente esta última profecia que Jesus atualizou na sinagoga de Nazaré, depois de procurá-la demoradamente, desenrolando o pergaminho de Isaías até um de seus últimos capítulos. Detalhe: em escavações arqueológicas no Egito, em pleno Séc. XX, foi encontrado intacto um rolo completo de Isaías, medindo nada menos que 12m de comprimento. Material frágil, que exigia grande cuidado ao ser manuseado, terá ocupado no mínimo dez minutos de Jesus, enquanto a assembleia esperava atenta. Pena que, ao ouvir a Palavra da própria boca de Jesus, não o tenham identificado como o Messias prometido...

No entanto, esse mesmo Jesus é o pleno cumprimento das promessas do Pai, na Primeira Aliança. Sua missão consistia em levar ao cumprimento todas as promessas antigas, em obediência à vontade do Pai. E Ele o faria como humilde servidor de Deus, como o Servo de Yahweh, revestido de nossa carne mortal.

Entretanto, como nenhum profeta é reconhecido em sua própria terra, também Jesus de Nazaré será rejeitado por seus conterrâneos, reduzido à conhecida figura do “filho do carpinteiro”. Ao seu anúncio, em vez de lágrimas de alegria, seus ouvintes babam de raiva. A revelação do amor de Deus é traduzida como blasfêmia. A Boa Nova de salvação é recusada pelos homens, prenúncio da extrema rejeição do Calvário.

E nós? Recusaremos a Jesus? Ou o aceitamos como o Salvador que dá a vida por nós?

Orai sem cessar: “Recordarei os benefícios do Senhor!” (Is 63, 7)

Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Lições de um acidente

Não é coisa de todos os dias que um bispo da Igreja Católica se envolva num acidente de trânsito, ainda mais quando o resultado é uma vítima fatal. Infelizmente, foi o que aconteceu comigo. Sendo que alguns amigos expressaram o desejo de saber como vivo essa experiência, coloco-a por escrito, pedindo a Deus que a transforme em sabedoria e comunhão.

Eram as 21,30 horas do dia 18 de outubro de 2012 – exatamente três meses atrás. Chovia e a pista estava escorregadia. Eu regressava a Dourados depois de me haver reunido, em Rio Brilhante, com as lideranças pastorais da paróquia. Apesar do mau tempo, foram numerosas as pessoas que se fizeram presentes (algumas haviam percorrido 70 km em estradas lamacentas).

Eu voltava com o coração agradecido por todo o bem que percebia sendo realizado por uma multidão de pessoas que, fiéis a Deus e amando a Igreja, arregaçam as mangas e atuam eficazmente por um mundo melhor. Por isso, passei a maior parte da viagem acompanhando o rosário transmitido pela Rádio Coração.
Sendo uma noite chuvosa, pensei comigo mesmo: «Vou com calma! Não preciso ter pressa! É melhor perder um minuto na vida do que a vida num minuto!». Assim, durante os 40 quilômetros que percorri antes do infortúnio, não ultrapassei nenhum carro.

Poucos minutos após cruzar pelo distrito de Cruzaltina, de repente percebo um vulto à minha frente. Nem deu tempo para distinguir se se tratava de um animal ou de uma pessoa. A chuva colaborou para a confusão. O corpo caiu sobre o parabrisa. Foi tudo tão rápido quanto improviso. Sem saber o que fazer, parei imediatamente no meio da pista. Saindo do carro, vi, caído no acostamento, um jovem de uns 25/30 anos.

Não posso negar: foram os momentos mais cruciais da minha já não breve vida, que me fizeram lembrar da dor e das trevas de Jesus no Calvário: «Meu Deus, por que me abandonaste?» (Mt 27,46). Dor e trevas, porém, que foram amenizadas pela rapidez com que Deus se fez presente através de motoristas e outras pessoas que, apesar da chuva e do horário, venceram a tentação da pressa e do medo e me socorreram. Uma solidariedade que me ajudou a recobrar a serenidade, a retribuir amor com amor e a substituir a amargura pela confiança, a exemplo de Jesus que, entre as trevas da agonia, repetiu: «Pai, em tuas mãos entrego a minha vida!» (Lc 23,46).

O rapaz – que mais tarde eu soube tratar-se de Douglas Campos de Santana, residente em Itaporã – foi levado a um hospital de Dourados, mas veio a falecer poucos minutos após a sua chegada. Seu funeral, realizado no sábado, foi acompanhado por numerosos fiéis da Igreja Católica, que procuraram consolar e animar uma mãe que, depois de ter perdido o marido há alguns anos, agora lhe era tirado também o filho.

No sábado seguinte, mantive um encontro com ela, num almoço oferecido por uma família amiga. Soube, então, dos percalços que, há tempo, transtornavam a vida do Douglas e o levavam a se perguntar se valia a pena viver. Dois motoristas que passaram pelo local do acidente poucos minutos antes de mim, precisaram fazer manobras arriscadas para não atropelá-lo.

Antes do acidente, eu me perguntava como é que se sentem as pessoas que carregam no coração a dor de terem causado a morte de alguém... Talvez Deus permitiu que eu fosse incluído nesse número para me ajudar a ser menos precipitado em meus julgamentos, já que nem todo acidente é fruto da bebida, do excesso de velocidade ou do desrespeito às leis de trânsito. Ou, para que eu aprenda, com Jó, a «receber de Deus não somente os bens, mas também os males» (Jó, 2,10). Ou, ainda, para me fazer conhecer pessoas maravilhosas que me demonstraram compreensão e apoio, a começar pela mãe do Douglas, que viu em mim «um anjo da noite enviado por Deus para levar seu filho ao céu». Palavras que me soaram como um apelo de Deus para introduzir também em Dourados, uma Diocese onde são centenas as vítimas ceifadas pelo trânsito todos os anos, o Grupo Ecumênico “Filhos no Céu”, nascido na Itália em 1991, para agrupar, confortar e amparar as famílias que têm filhos morando no céu.
Quem consegue transformar a dor em amor, faz sua a experiência que levava São Paulo a garantir: «Tudo concorre para o bem dos que amam a Deus» (Rm 8,28). Até mesmo um acidente de trânsito...

Dom Redovino Rizzardo, Bispo de Dourados (MS)

Grupo de Oração Frutos do Amor de Deus


Então Pedro se aproximou dele e disse: Senhor, quantas vezes devo perdoar a meu irmão, quando ele pecar contra mim? Até sete vezes? Respondeu Jesus: Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. (Mateus 18, 21-22)




Leitura Bíblica: 2Timóteo 2, 1-8


“Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e de sobriedade” 
(2Tm 1,7)

Comemoramos hoje a festa de dois discípulos e companheiros de Paulo em suas andanças.  Belíssimo o trecho da carta a Timóteo, proclamado na liturgia de hoje.
Paulo apresenta seu título de honra:  “Paulo, apóstolo de Jesus Cristo pelo desígnio de Deus…”.  Paulo tem plena consciência  de sua missão. Não nasceu dele, mas foi uma determinação de Deus.  Ele sabe que foi enviado a anunciar os desígnios eternos de Deus que estavam ocultos em Deus e que  manifestaram-se a fragilidade e na glória de Cristo.  Mais adiante ele dirá que serve a esse Deus com consciência pura.  Será enviado para os de fora, para os gentios.

Estaria ele diante de um Timóteo fragilizado?  Algumas das expressões da carta poderiam sugeri-lo.  Há toda uma visão profundamente pascal da vida e das coisas.  Há uma imensa ternura.

Paulo dá graças a Deus em suas orações quando se lembra de Timóteo. Há um interesse e uma atenção especiais por Timóteo de sorte que o apóstolo gosta de colocar-se diante do Senhor  em sua companhia.  Paulo lembra-se de suas lágrimas, dos seus sofrimentos.  Tem vontade de rever o companheiro e assim por termo à sua tristeza de estar longe dele: “Lembrando-me  das tuas lágrimas, sinto grande desejo de rever-te e assim ficar cheio de alegria”. Alegria dos missionários cujos corações batem uníssonos, alegria por uma causa comum, vontade de estar com aquele que é também amigo do Mestre.  Belíssimas as amizades que a história revela entre pessoas unidas no Senhor, aqueles que têm a alegria de tornar o Amor amado.
Paulo elogia a fé do seu amigo. Esta fé vem de sua família, da avó Loide e da mãe Eunice.  Pormenor importante este: os pais são os primeiros e fundamentais anunciadores da fé aos filhos.  Não obrigam-nos a crer. Mas certamente a solidez e lucidez da fé dos pais é de fundamental importância para que  os  filhos comecem  a aventura da fé.  Parece  que Timóteo experimenta um desalento. “Exorto-te a reavivar  a chama do dom de Deus que recebeste pela imposição das minhas mãos”.

Há um convite a  que  volte ao primeiro amor.  O bispo Timóteo não pode esquecer que recebeu a imposição da mãos, sinal da graça do Senhor, para que ele pudesse ser administrador dos mistérios de Cristo.  Cada um daqueles que são padres sempre se lembram da preparação para sua ordenação e de como viveram intensamente os  momentos que precederam a cerimônia, o retiro preparatório,  a alegria vivida com os confrades,  os primeiros tempos do ministério.  “Exorto-te a reavivar a chama  do dom de Deus…”  Paulo, carinhosamente repreende o companheiro: “Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e de sobriedade”.

Finalmente vem a palavra mais forte  e mais densa.  Timóteo não pode  ter medo de suas fraquezas e das fraquezas dos outros. Será preciso sofrer com Paulo, em outras palavras, viver o mistério  pascal em sua carne.  “Não te envergonhes  do testemunho de nosso Senhor nem de mim, seu prisioneiro, sofre comigo pelo evangelho, fortificado pelo poder de Deus”.

Frei Almir Ribeiro Guimarães

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Conversão de São Paulo

Comemoramos hoje a conversão de São Paulo. Difícil qualificar esse gigante de todos os tempos.  Houve um momento em sua caminhada que o Ressuscitado dele se aproximou:  “Saulo, Saulo, por que me persegues!”  Esse intrépido defensor da fé judaica com a força e a luminosidade desta pergunta cai por terra,  começa a questionar sua vida, é convidado a rever a maneira como vinha se portando frente aos discípulos de Jesus. Naquele momento tudo nele é confusão e perplexidade. Ele abandona seus projetos de perseguir  os cristãos, recolhe-se no silencio e no deserto, deixa-se formar pela palavra de homens de fé,  faz-se batizar, perde e recupera a vista. Tempo breve, tempo mais longo?  Há um trabalhar da graça do Ressuscitado e estava formado o mais ardoroso de todos os discípulos.

Um andarilho sempre disposto a caminhar. Não se instala. Há dentro dele um fogo e ardor que não pode controlar.  Tem  vontade imensa  de estar com seu  Cristo Jesus. 

Não sabe, no entanto, o que é melhor: ir para  o Senhor  ou se fazer até o fim de seus dias o grande anunciador do mistério oculto em Deus e manifestado em Cristo, o Senhor.  Hesita entre uma e outra escolha.  Caminha sem se preocupar com detalhes. Sabe viver com o muito e também na pobreza. Trabalha com suas próprias mãos para não ser peso para ninguém.  Cria comunidades. Fala, prega, insiste a gosto e contragosto e deixa um irmão mais esclarecido para cuidar das comunidades de Corinto, de Éfeso ou de Filipos.  Sabe vociferar contra   os que impedem a difusão do evangelho e, de outro lado, se reveste de ternura.  Escreve cartas, coloca por escrito aquilo que vai compreendendo por meio da assistência do  Espírito.  Vê-se forçado a recriminar aqueles que querem indispô-lo  com Pedro e Tiago. Sente, no entanto, que ele não pode ficar fechado no círculo dos judeus.  Precisa ir pelo  mundo.  Vira a página das prescrições judaicas… Não se pode colocar pano novo em roupa velha…

Fica todo possuído de admiração por seu Senhor.  Ele, de condição divina se tornou servo obediente até à morte  e morte de cruz.  Compreende a largura, a profundidade, o comprimento do amor de Deus manifestado  em Cristo Jesus. Tem como lixo tudo o que não for Cristo  Jesus.

João Crisótomo assim o descreve: “No meio das insídias dos inimigos, conquistava contínuas vitórias  triunfando  de todos os seus assaltos. E, em toda parte, flagelado, coberto de  injúrias e maldições, como se desfilasse num cortejo triunfal, erguendo numerosos troféus  gloriava-se e dava graças a Deus, dizendo: Graças sejam dadas a Deus que nos faz sempre triunfar (2Cor 2,14).  Por isso, corria ao encontro das humilhações e das ofensas  que suportava por causa da pregação, com mais entusiasmo do que nós quando nos apressamos para alcançar  o prazer das honrarias; aspirava mais pela morte  do que nós pela vida: ansiava mais pela pobreza do que nós pela riqueza;  e desejava muito mais o trabalho sem descanso do que  nós  o descanso depois do trabalho. Uma só coisa o amedrontava e fazia temer: ofender a Deus. E uma só coisa desejava: agradar a Deus (L.Horas III, p. 1209).

Frei Almir Ribeiro Guimarães