terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Filtros

Sócrates, dentre os filósofos gregos, era reconhecido pela pedagogia afável com seus orientandos, sobretudo pela praticidade objetiva e direta com que comunicava larga experiência de vida. Num certo dia ele se encontra com alguém que lhe diz: Sócrates, sabe o que acabo de ouvir sobre um de seus alunos? Um momento, respondeu Sócrates.

Antes de me dizer, gostaria que você passasse por um pequeno teste. Chama-se teste dos três filtros. O que significa isso, diz seu interlocutor? Antes de me contar o que quer que seja sobre um aluno meu, é bom pensar um pouco e filtrar o que vais me dizer. O primeiro filtro é o da verdade. Estás completamente seguro de que o que me vai dizer é verdade? Bem, eu acabo de saber, redarguiu o homem. Então, sem saber se é verdade, ainda assim queres me contar? Vamos ao segundo filtro, que é o da bondade. Queres me contar algo de bom sobre meu aluno? Não, pelo contrário, respondeu. Então, intervém Sócrates, tu queres me contar algo de ruim sobre ele, se tu não sabes se é verdade? Ora veja! Ainda podes passar no teste. Porém ainda resta o terceiro filtro que é o da utilidade. O que queres me contar vai ser útil para mim? Portanto, conclui Sócrates, se o que tu queres me contar pode não ser verdade, pode não ser bom e pode não ser útil. E daí, para que me contar? A história “se non è vera, è bene trovata”.

Geralmente o ser humano afirma coisas sobre as quais ouviu alguém falar, ou então opina sobre realidades sem conhecimento de causa e não conhece bem ou nem sequer conhece. Sempre a gente acha alguma coisa sobre alguém ou a gente se atreve a julgar outrem porque “ouviu o galo cantar” em algum canto. Há momentos nos quais a vida de alguém pode estar em jogo, julgada causticamente pelos padrões da moda. Uma vida pode ser destruída pela fixação mental de alguém que se antipatizou. Nós podemos criar fantasmas em nosso imaginário neurótico. Isso pode se tornar obsessão e loucura.

Nesse e em tantos casos precisaremos de ajuda. É muito fácil precipitar-se de forma primária. Uma pedra lançada ao rosto não volta atrás pelo erro cometido. O divino Mestre nos adverte para que não incorramos no juízo precipitado de alguma opinião pessoal, não raro, equivocada ou não esclarecida: “Não julgueis e não sereis julgados, pois com a mesma que julgais, sereis julgados” (cf. Mt. 7, 1-2). Jesus nos oferece um contraponto sobre o desperdício de atitudes mal interpretadas por gente que não quer nada com a vida: “Não atireis aos cães o que é santo, nem atireis pérolas aos porcos, para que não as pisem e, voltando-se contra vós, vos estraçalhem” (cf. Mt. 7,6).

Dom Aldo Pagotto, Arcebispo da Paraíba

domingo, 20 de janeiro de 2013

#FicaAdica 61




Estar cheio de vida é respirar profundamente, mover-se livremente e sentir com intensidade. E tal ação delimita um tempo de respiração e inspiração, de recolhimento e expansão, de doação e de recebimento. Assim é a vida na sua intensidade: requer vários momentos, várias estações, dias e noites, chuvas, sol e luar… A vida, meu caro, é uma explosão de alegria; ela é sopro que vem do Criador e faz-nos sentir que participamos de uma ciranda de amor, pois é pulsação do eterno!
Então, não fique se lamentando e nem se feche em si mesmo, dando espaço para a depressão e para a tristeza. Cante a sua canção, permita-se alguns momentos diferentes e fora do padrão: dance e cante na chuva, mergulhe numa cachoeira, ajunte pedrinhas na beira de uma riacho, faça castelos de areia na praia com seus filhos… Faça da sua vida algo grandioso e terás muitos motivos para louvar e bendizer o Criador!

Frei Paulo Sérgio, ofm

Leitura Bíblica: João 2, 1-11

“Houve um casamento em Caná da Galileia. A mãe de Jesus estava presente...” (Jo 2,1)

Um casamento na roça. Em Caná de Galiléia. Mal iniciada a festa, o vinho vem a faltar. Para os padrões daquela sociedade, casamento sem vinho é um fracasso. Onde está o vinho, aí está a alegria. Tudo faz pensar em gente pobre, um noivo sem muitos recursos e – quem sabe – uma inesperada afluência de “convidados”: os numerosos discípulos que já acompanhavam Jesus de Nazaré.

Mas, como anota o evangelista João, “estava lá a Mãe de Jesus”. E foi ela quem percebeu a situação constrangedora. Enquanto os convivas cuidam de si mesmos, ela está atenta às necessidades dos outros. Por isso mesmo, Maria se dirige ao Filho e apresenta-lhe a situação: “Eles não têm vinho...” E o faz como quem sabe que seu Filho tem condições de resolver o problema. A Mãe conhece o seu Filho.

Até onde dá a perceber o texto um tanto obscuro, Jesus tenta esquivar-se do caso, como se não tivesse nada a ver com a situação. Maria ouve a resposta do Filho, mas age como quem vê por um outro ângulo. E dá aos serventes – seguramente primos e parentes do noivo – a ordem que ainda ressoa em nossos ouvidos: “Fazei tudo o que ele vos disser!” A obediência deles garante a todos um agradável desfecho: notável quantidade de vinho, somada à qualidade ainda mais notável!

Esta passagem do Evangelho de João, por mais pitoresca que ela seja, acaba por se tornar “incômoda” para aqueles que duvidam da intercessão da Mãe de Deus. Temos uma situação bem concreta: há uma necessidade material, Maria a percebe e pede a interferência de Jesus. Apesar de uma recusa inicial, o Mestre “cede” e faz o primeiro milagre de sua vida pública.

Aliás, nada mais claro como imagem da Igreja que intercede junto a Deus pelas necessidades do povo. É em Maria que a Igreja se inspira para assumir sua missão de intercessora.

E tem mais! Não se trata de alguma cura que pudesse ser traduzida como fenômeno “psicossomático” ou alucinação coletiva: trata-se de uma autêntica transformação da matéria, água transmudada em vinho, com todas aquelas diferenças organolépticas que envolvem cor, aroma e sabor.

Daquele dia em diante, os pobres da roça ficaram sabendo que a Mãe pode influir nas decisões do Filho. Ficaram sabendo que a misericórdia move o poder. Os acadêmicos continuam esperneando. Mas os pobres preferem crer em seus próprios sentidos...

Orai sem cessar: “Mãe dos pobres, rogai por nós!”

Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Os olhares de Jesus

Olhar a vida de diferentes pontos de vista é uma atitude sábia que floresce no tempo de nosso próprio amadurecimento. Ver a vida com novos olhos é descobrir o que estava à nossa frente e não conseguíamos enxergar. O tempo nos ensina a olhar com maturidade. Inútil será querer ver o fruto quando a semente ainda está nascendo. O tempo reconcilia nossos olhares com a vida e conosco mesmos. Muitas são as maneiras de olharmos a vida. Cada um olha a partir daquilo que a vida lhe ensina a olhar. Uns olham longe e acabam se perdendo na imensidão do que veem. Outros olham perto e não coneguem ir além do que estão vendo. Outros olham apenas para si mesmos e vivem fechados em um olhar individualista. Cada olhar é uma maneira única de nos encontrarmos com aquilo que vemos, e cada encontro precisa ter o olhar da sabedoria que ensina a ser mais humano. Múltiplos são os olhares e eles ganham as tonalidades que neles imprimimos. Há olhares de inveja que roubam a paz.
Há olhares de indiferença que fazem o outro sentir-se desprezado e humilhado. Há olhares de raiva que imprimem na alma as marcas da agressividade. Há olhares tristes que estão presentes em muitos e nos mostram o inverno rigoroso que fez morada em territórios misteriosos da alma. Mas também há os olhares que transmitem vida: o olhar da compaixão que acolhe; o olhar alegre, que nos faz sentir abraçados; o olhar da paz, que nos devolve o céu; de solidariedade, que nos une como irmãos e irmãs. Nosso olhar revela o que passa em nossa alma. Captar o que ele quer dizer pode ser tarefa difícil. É necessária a sensibilidade de quem, um dia, aprendeu a olhar como o Mestre da Vida. Muitos olharam e foram olhados por Jesus; dentre todos estes olhares temos a certeza somente de uma coisa: quem olhou ou foi olhado por Jesus nunca mais foi o mesmo. O olhar do Senhor tinha a sensibilidade de devolver ao ser humano o sentido de sua existência. O silêncio do olhar divino escrevia novas frases de uma vida que se encontrava sem sentido.

Jesus olhou para a samaritana e lhe entregou uma fonte de água viva. Nunca mais aquela mulher teve sede de vida. A fonte de um novo tempo irrigou os canteiros daquela alma cansada de buscar uma água que não saciava a sede de modo definitivo. As águas da saciaram aquela alma sedenta brotavam de uma fonte viva. O balde foi deixado de lado, pois a fonte de água agora jorrava dentro dela mesma.

A pecadora tinha, diante de si, olhares que a condenavam. Quem rotulam o próximo já foi, antes, rotulado pelos próprios pecados de quem olha. Jesus sabia que aqueles olhares estavam contaminados pelos próprios pecados de quem olhava os erros daquela mulher. O outro é um espelho que nos indica o que em nós precisa ser mudado. Quando não conseguimos retirar as ervas daninhas de nossa alma, vamos até os canteiros do outro e tentamos cuidar de terrenos que não nos pertencem. Jesus olhou para aqueles olhos que estavam prestes a matar aquela mulher e retirou o véu das próprias perfeições que eles carregavam em si mesmos. Olhares imperfeitos tem o brilho da perfeição.

Foi somente um olhar de amor que devolveu àquela mulher a chance de recomeçar a vida de modo diferente. O olhar da misericórdia encontrou-se com o olhar de imperfeições. A misericórdia semeou, naquela vida, as flores da primavera de novas alegrias e ela partiu para levar o perfume das flores que agora brotavam em sua alma.

Cada olhar de Jesus mostrava um novo caminho para quem d'Ele se aproximava. O olhar divino tocava a alma humana de cada pessoa e fazia de cada manhã a mais bela experiência do viver. Nunca um olhar foi tão surpreendente com o olhar de Cristo. Quem olha com amor devolve a luz que foi apagada pelas incompreensões de uma noite que está prestes a se despedir.

Uma nova vida começa a existir a partir do momento que mudamos o nosso modo de ver o mundo. Enquanto há muitos olhares que matam, Jesus olha com vida para os canteiros de nossas possibilidades. Enquanto houver um amanhecer, Deus estará olhando com a luz do seu amor sobre cada um de nós. Nos olhares de amor de Cristo descobriremos que os nossos olhares imperfeitos estão prestes a serem sementes de uma nova estação que se chama Amor.

Padre Flávio Sobreiro

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

(CIC) Ressuscitados com Cristo

Se é verdade que Cristo nos ressuscitará "no último dia", também é verdade que, de certo modo, já ressuscitamos com Cristo. Pois, graças ao Espírito Santo, a vida cristã é, já  agora na terra, uma participação na morte e na ressurreição de Cristo:

Fostes sepultados com Ele no Batismo, também com Ele ressuscitastes, pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dos mortos. (...) Se, pois, ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus (Cl 2,12;3,1).

Unidos a Cristo pelo Batismo, os crentes já  participam realmente na vida celeste de Cristo ressuscitado, mas esta vida permanece "escondida com Cristo em Deus" (Cl 3,3). "Com ele nos ressuscitou e fez-nos sentar nos céus, em Cristo Jesus" (Ef 2,6). Nutridos com seu Corpo na Eucaristia, já  pertencemos ao Corpo de Cristo. Quando ressuscitarmos, no último dia, nós também seremos "manifestados com Ele cheios de glória" (Cl 3,3).

Enquanto aguardam esse dia, o corpo e a alma do crente participam desde já  da dignidade de ser "de Cristo"; daí a exigência do respeito para com seu próprio corpo, mas também para com o de outrem, particularmente quando este sofre:

O corpo é para o Senhor, e o Senhor é para o corpo. Ora, Deus, que ressuscitou o Senhor, ressuscitará  também a nós por seu poder. Não sabeis que vossos corpos são membros de Cristo? (...) Não pertenceis a vós mesmos. (...) Glorificai, portanto, a Deus em vosso corpo (1Cor 6,5.19-20).

Catecismo da Igreja Católica, § 1002-1004

Clamar ao Senhor

Os primeiros dias de um novo ano despertam em nós uma série de perguntas: Como será este ano que começa? Conseguirei superar os meus problemas? Haverá paz entre os povos? Os economistas encontrarão respostas adequadas para os desafios que enfrentamos? Os políticos... etc.  Cada qual julga-se portador da solução ideal e do remédio eficaz para os males que afligem nossa sociedade. Em meio a tanta palavra vazia que se ouve, não seria o caso de buscarmos uma orientação nas raízes de nossa fé? Não quero dizer com isso que as discussões sejam inúteis; são, isto sim, normalmente incompletas. Falta-lhes, por vezes, um elemento essencial: a convicção de que “Se o Senhor não construir a casa, é inútil o cansaço dos pedreiros” (Salmo 127/126,1). Por isso, deveríamos começar este primeiro mês do ano da graça de 2013 com um profundo clamor, uma súplica ardente, uma prece confiante. Explico-me, a partir de um texto do Deuteronômio. Como é sabido, esse livro reproduz um grande discurso de despedida pronunciado por Moisés, pouco antes de morrer, no fim da travessia do deserto e às vésperas da conquista da Terra Prometida. Moisés apresentava as leis a serem observadas na Terra Prometida, conclamando o povo a ser fiel à sua eleição e à aliança com Deus. Depois de tomar os primeiros frutos de tudo o que a terra tivesse produzido, e de tê-los colocado numa cesta, o fiel deveria apresentar-se ao sacerdote, que colocaria a cesta diante do altar, e declarar, diante do Senhor:

“Meu pai era um arameu errante, que desceu ao Egito com um punhado de gente e ali viveu como estrangeiro. Mas ele tornou-se um povo grande, forte e numeroso. Então os egípcios nos maltrataram e oprimiram, impondo-nos uma dura escravidão. Clamamos então ao Senhor, Deus de nossos pais, e o Senhor ouviu nossa voz e viu nossa opressão, nossa fadiga e nossa angústia; o Senhor nos tirou do Egito com mão forte...” (Dt 26,5-8).

Essa maneira de reagir diante dos problemas (“Clamamos ao Senhor...”) tornou-se um gesto normal e frequente na história do Povo Escolhido. Temos exemplos de súplicas em quase todos os livros do Antigo Testamento. Ora é Salomão que se volta para o Senhor: “Ouve o clamor e a oração que teu servidor te dirige” (2Cr 6,19), ora é o povo que brada: “Olha e vê nossa ignomínia” (Lm 5,1), ou, então, são os profetas que, como Daniel, insistem: “Ó nosso Deus, escuta as orações e as súplicas do teu servo” (Dn 9,17). Também o salmista lança seu grito: “Salva-me, ó Deus, pois a água sobe até o meu pescoço!” (Sl 69/68,1); “Inclina para mim teu ouvido; quando te invoco, atende-me depressa!” (Sl 102/101,3) etc. Nessas súplicas, os que clamavam partiam de uma convicção: o Senhor ama o seu povo, ouve sua oração, gosta de lhe demonstrar sua amizade e atenção, e nunca deixa um grito ou pedido sem resposta. Ele salva seus filhos e filhas porque é bom e poderoso.  Jesus procurou aprofundar em nós essa convicção, tanto que nos ensinou: “Pedi e vos será dado. Pois todo aquele que pede, recebe” (Mt 7,7-8). Ele mesmo estava atento aos pedidos que lhe faziam – como, por exemplo, no caso do cego: “Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim!” (Mc 10,47).

O grito que parte do coração da criatura necessitada não se apóia nos méritos de quem o emite, mas na potência do Senhor. Essa confiança não dá o direito de nos omitirmos, mas, ao contrário, nos obriga a fazer a nossa parte e nos compromete ainda mais. Em outras palavras: justamente porque, em nossas necessidades, nos voltamos para Deus, com maior razão deveremos colocar nossos talentos na busca de soluções concretas e eficazes para os desafios que enfrentarmos.

Comecemos, pois, o novo ano, apresentando ao Senhor nossa própria dor, o sofrimento de nossa família ou comunidade, e os grandes problemas de nosso país. Nosso Deus abrirá diante de nós, então, novos caminhos, ao mesmo tempo em que nos dará força para fazermos o que nos compete. Sim, o Senhor ouvirá nossa voz e virá ao nosso encontro, porque é Deus, porque é Pai, porque é amor.

Dom Murilo S. R. Krieger

domingo, 13 de janeiro de 2013

#FicaAdica 60



Pense o que você tem para ofertar ao Senhor. São os seus pecados? É a tua fraqueza? É a tua juventude tão preciosa para Deus, para a Igreja, para a humanidade? Não importa... O que você trás em seu coração: seja os melhores perfumes, ou seja os perfumes que você pensa que estão estragados... se você oferta, ele vira o melhor perfume. Uma vez decidido ofertar, é para sempre! Não tem mais volta! Oferte aquilo que você trás em seu coração. Não tenha medo!

Missionário Shalom Oficial